domingo, 17 de maio de 2026

Calma e agito de um Zumbido

 Resolveu aproveitar a hora disponível para dar o último mergulho no mar antes de retornar à rotina normal. Era manhã, e mais tarde ele teria compromisso de trabalho. Passara cinco dias longe das obrigações diárias, as mini férias haviam sido muito bem aproveitadas em um pequeno lugar no litoral.



A cidade, com cara de vila de pescadores, era daqueles lugares que pareciam sair de um conto literário. Ruas pequenas, todas calçadas com paralelepípedos cuidadosamente assentados, literalmente à mão. As casas, com fachadas coloridas que lembravam um arco-íris sem qualquer compromisso com a ordem das cores, deixavam o ambiente ainda mais mágico. Portas e janelas de madeira reforçavam o charme simples do vilarejo, que parecia seguir uma silenciosa regra quanto à altura máxima de cada imóvel. E claro, sem esquecer da fina areia que ocupava trechos da rua principal, deixando evidente que a praia estava logo ali, próxima de qualquer ponto da vila.



Ele colocou a camisa vermelha no ombro, vestiu uma bermuda azul, pegou um pequeno cooler, guardou a toalha e o celular dentro e seguiu em direção à praia. O tempo estava nublado, mas isso nem de longe chegava a preocupá-lo naquele momento. A mente já vivia um conflito: a paz do lugar se chocava com a volta da vida urbana, onde motos e buzinas ocupariam o espaço que agora pertencia ao zumbido dos insetos vindos do mangue próximo.



“Perda da calmaria vestida de alegria”, pensava, enquanto já avistava o vai e vem das ondas alguns metros à frente.



Pôs os pés na areia. Não havia muito vento naquele momento. Nessa época do ano, os dias se alternavam entre chuva e sol, não havia espaço para os ventos fortes, o segundo semestre era reservado a eles.



Chegou à parte mais dura da areia e percebeu que a maré estava baixa, deixando o mar bem recuado. Era exatamente esse tipo de praia que mais lhe agradava: vasto espaço de areia e águas mansas, com ondas que mais lembravam uma lagoa.


Enquanto caminhava em direção à água, avistou um casal correndo de mãos dadas e se jogando na beira do mar. Os sorrisos quase podiam ser ouvidos, apesar da distância. Os dois se abraçavam e se afastavam enquanto as gargalhadas aumentavam. Trajavam roupas que não combinavam com a praia, talvez tivessem acabado de chegar e correram direto para ver o mar.


“Entendo eles. Entendo demais.”



Parou e descansou o cooler no chão. Jogou a camisa dentro, olhou a hora no celular e o guardou novamente junto da toalha.



Entrar no mar sempre vinha acompanhado do mesmo ritual: tocar a água com uma das mãos para senti-la de verdade, como se os pés ainda não tivessem se molhado antes. A mão úmida subia até a testa e seguia o caminho da cruz pela face. O pensamento mudava, e ele ouvia a própria voz dentro da cabeça agradecendo por aquele momento. A fé o deixava em silêncio e imóvel por alguns segundos, até o instante em que jogava o corpo contra a pequena onda que vinha em sua direção. Furou a onda com um movimento que lembrava um golfinho saltando. O corpo agora estava completamente molhado e, apesar do tempo fechado, a água permanecia morna, típica do nordeste brasileiro. Ao emergir, passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto, retirando a água dos olhos.



A costa era maravilhosa. Admirava os coqueirais e as cadeiras, mesas e guarda-sóis organizados em meio às cores espalhadas pela praia. A natureza tinha algo de divino, e a vida parecia caminhar colada a isso.



O tempo passava devagar. A maré calma e as águas quentes eram um convite perfeito para se desligar de tudo. Nunca aprendera a boiar. Resolveu tentar novamente e, mais uma vez, não conseguiu. Ainda assim, permaneceu com o corpo virado para o céu, encarando aquela imensidão cinza formada por nuvens que pareciam ter se unido em uma só. Naquele momento, pensava apenas em por que cargas d’água nunca aprendera a boiar.



Apesar de estar sem relógio, sentiu que já era hora de sair do mar. Caminhou até o cooler, pegou a toalha e enxugou as mãos e o rosto. Depois, tirou o celular para ver as horas e checar se havia alguma mensagem para responder, afinal, aquele dia voltaria a se transformar em dia útil no fim da tarde.



“É... parece que terminou a calmaria”, murmurou.


Chegara o momento de deixar o paraíso para trás. Antes disso, olhou em volta, ergueu o celular e resolveu tirar mais algumas fotos. Avistou uma jangada sobre a areia e pensou que ali renderia um bom clique.



Quando se abaixou para pegar o isopor, sentiu uma pancada no pescoço. Ergueu-se rapidamente e levou a mão ao lado esquerdo da cabeça, próximo à orelha. A dor foi instantânea e intensa. Olhou ao redor e avistou uma abelha. Tentou acertá-la com a toalha, mas foi em vão. Quando se virou para tentar outro golpe, percebeu que havia outras, rondando-o.


Uma sensação de medo percorreu seu corpo inteiro. “Mais picadas não seriam nada bom”, pensou.


Rapidamente jogou o celular dentro do isopor, enquanto a outra mão se movia freneticamente, afastando as abelhas que o perseguiam com o zumbido incessante. Saiu em disparada em direção ao mar. Correu como nunca antes. O incômodo atrás da cabeça aumentava, e a sensação era de ter sido golpeado por algo muito maior que um simples inseto. Chegou à água, mas nem precisou mergulhar. Percebeu que as abelhas não o haviam seguido. Ficou imóvel, passando a mão sobre o machucado na esperança de aliviar a dor.



Olhou em volta. Fixou o olhar nas pessoas espalhadas pelas barracas de praia e percebeu que ninguém o observava. “Talvez ninguém tenha visto”, pensou.



Depois de algum tempo encarando o cooler abandonado e o espaço ao redor, resolveu voltar. Em um movimento rápido, segurou a alça do isopor e se afastou do local do ataque. Parou na parte da areia fofa e olhou mais uma vez, procurando as abelhas. Percebeu ali, naquele instante, que aquela seria sua última visão do mar naquela viagem incrível. Respirou fundo, passeou o olhar pelo horizonte e se virou.


A dor ainda estava lá, e provavelmente continuaria por algum tempo. Agora, além das inúmeras fotos guardadas no celular, também levaria consigo uma história para contar.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Dias especiais

Tirei uns dias para descansar. Resolvi viajar e dar uma colher de chá - ainda que não total - para o lado da minha cabeça dedicado ao trabalho. A ideia tem funcionado bem. Até então, posso bater no peito e dizer: sim, essa viagem será lembrada como a viagem do repouso.
Talvez eu esteja enganado, mas não me lembro de outras viagens em que tenha passado boa parte do tempo deitado ou simplesmente no local onde me hospedei.
As viagens costumam se transformar em períodos nos quais ando muito, vivendo em zigue-zague por lugares que despertam a curiosidade do meu eu turista. Gosto disso. Gosto de me mover, visitar os pontos turísticos e, dependendo do local e da distância, opto por caminhar.

Os dias “off” são poucos. Pouquíssimos, na verdade. Cabem nos dedos de uma mão, e sendo sincero, talvez nem isso. Ainda assim, possuem um valor tremendo.

Escolhemos uma praia para os dias de descanso. O curioso é que moramos em uma praia, e os dias de lazer também acontecem em outra praia.

O pôr do sol no dia em que chegamos foi arrebatador. Um “bem-vindo” especial. O brilho amarelado que surgia no horizonte, por trás das dunas e das estruturas das turbinas eólicas, preenchia todo o ambiente. A luz do sol, que aos poucos desaparecia, marcava o chão duro e ainda molhado da praia.
A mudança da maré alta para a baixa é a que mais aprecio. Além de nos presentear com a calmaria das ondas, ela revela a faixa de areia dura que, até poucos minutos antes, estava sob o vai e vem do mar. Essa parte permanece coberta por uma fina lâmina d’água.
Para os apreciadores dos últimos momentos do sol do dia, isso é um bônus: o resultado é um imenso espelho no chão.

Ir à praia com tempo de sobra é saboroso. Carrega uma doçura leve, no ponto ideal, daquelas que nem o mais paranoico adepto de um regime rigoroso seria capaz de vetar. Uma maravilha agridoce, misturada ao sal presente na água e no ar.
É aquele sal que parece curar tudo. Que alivia e rejuvenesce a mente. Lava o corpo e a alma simultaneamente.

Tivemos dois dias de sol e dois dias de chuva. Os dias de sol poderiam ser chamados de “dias das cores”, porque neles tudo transborda e brilha. Tudo ganha vida em forte saturação. E, quando digo “tudo”, me incluo também, pois rapidamente troco a capa pálida que carregava por uma pele bronzeada e viva.
Estranhamente, foi justamente em uma manhã de sol e céu azul que finalizei a leitura de um livro. Deitado em uma preguiçosa sob a sombra, ao lado da piscina, interagindo vez ou outra com as pessoas que me acompanhavam nesses dias especiais.

Dias especiais e inesquecíveis.

sábado, 9 de maio de 2026

O dia tá marcado

Estou na contagem regressiva, na espera dos tão aguardados dias de descanso. A palavra "espera" remete à "esperança", ao pensamento positivo que tudo dará certo.
Os dias próximos a data agendada costumam ser rápidos, com cada minuto vivido intensamente, tudo tem que se encaixar, organizar, higienizar. São dias importantes. Os dias que antecedem o descanso/viagem/evento fazem a mente projetar o que deve vir pela frente. Sim, é inevitável a ansiedade, não tem como ser indiferente a isso. Quase tudo nos adianta no tempo e nos leva ao dia esperado. Em tempos de algoritmo, redes sociais e aparelho celular que tudo ouve, vira rotina surgir em sua tela menções, matérias, curiosidades e tantas coisas mais sobre o lugar para o qual você está no aguardo de ir.

Já que estou falando de dias, e por enquanto ainda no "pré", que tal adiantar o tempo e chegar no "pós"?
Bom, aqui fica entediante. O "day after" representa o início de uma (nova) contagem que nem se sabe exatamente quando vai ser finalizada. O show que você tanto esperou e curtiu aos montes acabou, quando será a próxima turnê? É uma sensação cansativa. Você viveu o ápice, curtiu o que estava nos planos, e agora? O que fazer? Como retornar a uma rotina sem saber nem que horas é o pôr do sol, por exemplo?
É como o dia após o seu aniversário: os sorrisos, mensagens, abraços e felicitações repousaram depois da madrugada. A diferença aqui é que a data pra viver tudo isso novamente já está marcada. E quando não há essa opção definida?

Viu?
Percebeu como é tediante o dia após? A minha mensagem assegurou em definitivo a chatice.

Vamos focar no dia D e curtir tudo por inteiro como se não houvesse amanhã. Com moderação e responsabilidade, é claro.
As boas energias focadas no dia do evento, no dia de descanso, no dia tão aguardado, no dia em que você mesmo vai se dar os devidos parabéns por existir.

Até lá.

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