segunda-feira, 6 de julho de 2026

À Distância - Parte 1

A atenção dela estava toda voltada para o livro em suas mãos. A leitura de romances investigativos a encantava. Costumava buscar sinopses e autores conhecidos por misturar mistério e histórias sensuais. Adorava se imaginar envolvida com personagens investigadores, para ela, eram eles que costumavam receber as descrições mais interessantes. Homens ou mulheres inteligentes, bem vestidos e com um humor acima da média. Esses eram os adjetivos que mais a atraíam.


Ela estava em um shopping, sentada em um banco, aproveitando os minutos restantes da pausa para o almoço. Levantou a cabeça e passou a observar o vai e vem de pessoas à sua frente. A ideia era encontrar, entre desconhecidos, o personagem por quem acabara de se apaixonar durante a leitura. A busca foi em vão. Balançou a cabeça negativamente e voltou a atenção para o livro.


"Enfim uma pequena movimentação no quarto que ficava no prédio do outro lado da rua. Ele arregalou os olhos, com toda a atenção voltada para o ambiente quase às escuras logo à frente. Era noite, e a iluminação precária no topo do edifício onde estava servia como um excelente esconderijo para a espionagem. Colocou a câmera fotográfica diante dos olhos e, com o auxílio do zoom, passou a observar o interior do imóvel à frente. As duas janelas mostravam exatamente o que ele queria: a sala e o quarto.
O casal atravessou a sala. O homem conduzia a mulher pela mão. Ele conseguia ouvir risos abafados pelo barulho de motos e carros que transitavam na rua, três andares abaixo. O prédio antigo, localizado em uma rua pouco movimentada no centro da cidade, servia como o reduto perfeito para um casal de amantes. Pelo menos até aquele momento.
Gil mantinha a câmera totalmente direcionada para a cama, aguardando o casal. Mas nenhum sinal de movimento.


'Onde estão eles?', pensou.


Gil havia sido contratado, duas semanas antes, por uma granfina muito rica. O encontro aconteceu dentro do automóvel dela, estacionado em um parque. A conversa foi rápida e sem rodeios. Ela foi direta ao dizer que suspeitava de uma traição por parte do namorado. No carro estavam apenas os dois, no banco traseiro, e o motorista, que escutava tudo em silêncio. Gil reparou que, durante toda a conversa, o motorista não tirava os olhos da patroa, e a maneira como os dois trocavam palavras parecia diferente.

'Acho que vou espionar alguém a mando de quem deveria ser espionada', pensou Gil.


O quarto, mal iluminado por uma lâmpada amarelada e móveis escuros, não ajudava no trabalho de Gil. Muito menos o casal, que entrou no quarto, mas não foi para a cama. O tempo passava, mas Gil, um detetive acostumado com esse tipo de trabalho, permanecia com os olhos presos no local.
Então, num piscar de olhos, a mulher se jogou sobre a cama, completamente despida. A pele branca em paz com a fraca iluminação do ambiente a deixava mais sensual, com as curvas do corpo se perdendo nas sombras, um convite para um parceiro curioso. Ela exibia um sorriso largo, os cabelos pareciam molhados. Virou-se de lado, deixando as costas voltadas para a janela, não parecia se importar com o prédio do outro lado da rua. Ela conversava com alguém que permanecia fora do campo de visão.
Gil se recriminou por não ter fotografado o casal quando atravessou a sala."



Ela conferiu as horas no relógio e percebeu que tinha apenas alguns minutos.

A história caminhava justamente para o ponto de que ela mais gostava: quando o suspense da descoberta se misturava ao odor do sexo. Achou melhor terminar a leitura em casa.



Voltou a observar as pessoas que passavam de um lado para o outro até enxergar alguém de rosto familiar. Na verdade, um rosto diferente e conhecido ao mesmo tempo. Ela estreitou os olhos, num movimento de buscar, ao mesmo tempo, uma visão mais nítida e alguma lembrança esquecida. A pessoa estava um pouco distante, posicionada de lado, atenta à televisão que exibia as opções do restaurante, completamente alheia àquela observação.


Enfim o reconheceu.



De imediato, uma onda de frio percorreu todo o seu corpo. Parecia um fantasma surgindo diante dela. Mas não. Era um ex-ficante. Não o via havia mais de quinze anos. Ele estava diferente. Cabelos curtos, bem aparados, vestindo roupas claras, impecáveis e alinhadas. "Será que aquele Romeu que conheci, que usava bermudas de surfista, se transformou em um homem igual aos que imagino nas histórias que leio?", pensou.



Seu olhar percorreu toda a área ao redor dele. "Ele deve estar com alguém. Não tem como estar sozinho."



Enquanto examinava as mesas próximas, procurando alguma mulher desacompanhada, colocou em prática todo o faro investigativo que vinha adquirindo nas leituras dos últimos meses. Ao mesmo tempo, tentava lembrar por que nunca havia firmado um relacionamento sério com Romeu. Ele era aventureiro por natureza. Vivia em função de carne nova, sempre atento às novidades, como um predador farejando movimento. Não existia nela qualquer arrependimento por ter sido uma de suas presas, apesar do gosto amargo de jamais ter tido o controle da relação. O bom humor e a luxúria eram suas maiores armas. Dominava como poucos a palavra certa para arrancar um sorriso malicioso de qualquer mulher que aceitasse conversar com ele a sós. E ela havia caído naquela conversa inúmeras vezes.



Ela se perguntava se deveria ou não ir até ele. Não sabia o que fazer. Olhou-se dos pés à cabeça, mexeu nos cabelos e os colocou de lado, da maneira que ele gostava de deixá-los quando passava os dedos suavemente por eles. Ajustou a camisa por dentro da calça e puxou o blazer um pouco mais para a frente. Naquele momento, agradeceu por sua farda ser escura, deixando-a mais magra.


Ele começou a caminhar em direção a ela, porém ainda não a tinha visto. Ela se levantou e passou a caminhar em direção a ele, mas resolveu desviar o olhar. Os dois se cruzaram. Logo depois, ela ouviu a voz dele perguntar:


- Cris?


Ela se virou, fitou-o e respondeu um "sim", como se estivesse falando com um estranho. Ele a olhou e perguntou novamente se o nome dela era Cris.


Iniciou-se, então, o diálogo tradicional de duas pessoas que acabavam de se reencontrar depois de muitos anos. Enquanto conversavam, ela estudava cada palavra e gesto dele, tentando descobrir sua situação amorosa. Radiante, percebeu que ele não usava aliança.


- Que maravilha te reencontrar! - disse ele, abrindo um largo sorriso. Cris não se segurou e resolveu abrir a porta do passado. - Sim. É interessante que, mesmo depois de tanto tempo, parece que estamos apenas continuando uma conversa que tivemos na semana passada, e não há mais de quinze anos.


- Verdade. - respondeu ele.


- Eu adorava as nossas conversas. - Ela chutou o balde e apostou tudo.


- Não me leve a mal, mas confesso que gostava ainda mais de como elas terminavam. Ou melhor, era sempre prazerosa a maneira como encerrávamos as nossas conversas.


- Pelo jeito, o tempo não passou, né, Romeu? Você continua o mesmo.


- Nós, Cris. Nós.



Eles estavam pegando fogo. As mãos estavam inquietas e os risos, fáceis. Tudo ali, em meio à multidão que passava de um lado para o outro. Mas eles só conseguiam ouvir um ao outro, vivendo a magia de poder voltar no tempo.


Ela o puxou para um abraço e sussurrou ao ouvido: Quero te ter hoje à noite. Às dez estarei livre.



Eles estavam juntos novamente. Após quinze anos, estavam prestes a reviver a química, ir contra a lei da física e ocupar o mesmo lugar no espaço, mostrar que, na matemática, um mais um às vezes resulta em sessenta e nove e que, na língua portuguesa, palavras sujas aceleram a respiração, despertam a força dos movimentos e transformam o suor dos dois corpos na energia necessária para repetir tudo aquilo sem pensar em parar.



Romeu deu um beijo inocente na face de Cris e disse: Antes das dez estarei aqui te esperando.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

No Code do Pearl Jam em minhas lembranças

Hoje vi, em uma página do Instagram, uma pessoa ranqueando as músicas do álbum No Code, do Pearl Jam. A lista com as 13 músicas foi organizada de acordo com o gosto pessoal da moça responsável pelo perfil. No vídeo, as músicas vão surgindo na sequência do disco e ela vai revelando a posição de cada uma. De cara, me chamou atenção perceber que ela classificou Sometimes como a décima segunda colocada, ou seja, a penúltima 0_0 Mas aquela era a lista dela, e não a minha.

Após isso, as músicas seguem aparecendo e ela vai classificando cada uma delas. Foi então que percebi o quanto esse disco foi - e ainda é - importante para mim.

O quarto disco deles, lançado em 1996, foi o primeiro disco do Pearl Jam que eu comprei. Sim, isso mesmo. Vale registrar que o Ten, álbum de estreia da banda, eu tenho desde o lançamento, porém não o comprei, mas sim tomei do Paulo Cabeça.

Pois bem, voltando ao No Code...

Na época, vi uma crítica em alguma revista dizendo que o Pearl Jam tinha lançado um disco diferente dos dois trabalhos anteriores (Vs. e Vitalogy) e resolvi descobrir qual era essa tal diferença. Suspeito que eu não tinha nada em que me basear para imaginar a sonoridade do novo trabalho, haja vista que, na época, o PJ seguia sem lançar videoclipes e sites com streaming eram algo de um mundo desconhecido do futuro. No planeta em que vivíamos, a música era consumida em CDs, vinis ou rádio.

Havia uma loja em um shopping que era o único lugar onde se encontravam as grandes novidades do rock. O shop era distante e, na semana em que fiquei sabendo que eles já estavam com o disco, a Adelana comentou comigo que iria até lá. Foi das mãos dela que recebi o No Code. Ouvi o disco algumas vezes e o guardei. Guardei por alguns meses. O álbum não me agradou de imediato.

Após esses meses de mofo, resolvi dar uma segunda chance ao CD e, enfim, veio o arrebatamento. As treze canções se transformaram, ganharam força e forma.

Gosto de lembrar dessa época, de como tudo foi se moldando, daquela Adelana que me entregou o disco e que, anos mais tarde, tatuou um trecho da letra de Hail, Hail na pele. Gosto de recordar das tantas revistas das quais fui assinante e da forma como elas ajudaram a moldar algumas das minhas escolhas e gostos. Da execução de Off He Goes no violão por uma pessoa quando eu e Adelana fizemos nossa primeira viagem para fora do estado, provavelmente em 97 ou 98, para o Piauí.

Gosto de lembrar também de anos mais à frente, quando Around The Bend se transformou na canção de ninar que surgia em minha cabeça enquanto eu colocava Pablo para dormir.

Gosto de lembrar de tudo que envolve esse disco, e perceber que Off He Goes é a única musica do PJ que me vejo a cantar em um karaoke da vida.

Gosto de ouvi-lo. De quando ele me pergunta quem eu sou. Da forma triste como me faz perceber que, às vezes, os amigos não conseguem nos ver. Gosto da maneira como ele me fala para aproveitar o momento presente, do quão grande é Deus e de que devo andar na linha, pois o diabo está rodeando, à espera.

Gosto da magia do destino que foi ter recebido esse álbum das mãos da Adelana e justamente nele estar a “nossa” canção.

domingo, 17 de maio de 2026

Calma e agito de um Zumbido

 Resolveu aproveitar a hora disponível para dar o último mergulho no mar antes de retornar à rotina normal. Era manhã, e mais tarde ele teria compromisso de trabalho. Passara cinco dias longe das obrigações diárias, as mini férias haviam sido muito bem aproveitadas em um pequeno lugar no litoral.



A cidade, com cara de vila de pescadores, era daqueles lugares que pareciam sair de um conto literário. Ruas pequenas, todas calçadas com paralelepípedos cuidadosamente assentados, literalmente à mão. As casas, com fachadas coloridas que lembravam um arco-íris sem qualquer compromisso com a ordem das cores, deixavam o ambiente ainda mais mágico. Portas e janelas de madeira reforçavam o charme simples do vilarejo, que parecia seguir uma silenciosa regra quanto à altura máxima de cada imóvel. E claro, sem esquecer da fina areia que ocupava trechos da rua principal, deixando evidente que a praia estava logo ali, próxima de qualquer ponto da vila.



Ele colocou a camisa vermelha no ombro, vestiu uma bermuda azul, pegou um pequeno cooler, guardou a toalha e o celular dentro e seguiu em direção à praia. O tempo estava nublado, mas isso nem de longe chegava a preocupá-lo naquele momento. A mente já vivia um conflito: a paz do lugar se chocava com a volta da vida urbana, onde motos e buzinas ocupariam o espaço que agora pertencia ao zumbido dos insetos vindos do mangue próximo.



“Perda da calmaria vestida de alegria”, pensava, enquanto já avistava o vai e vem das ondas alguns metros à frente.



Pôs os pés na areia. Não havia muito vento naquele momento. Nessa época do ano, os dias se alternavam entre chuva e sol, não havia espaço para os ventos fortes, o segundo semestre era reservado a eles.



Chegou à parte mais dura da areia e percebeu que a maré estava baixa, deixando o mar bem recuado. Era exatamente esse tipo de praia que mais lhe agradava: vasto espaço de areia e águas mansas, com ondas que mais lembravam uma lagoa.


Enquanto caminhava em direção à água, avistou um casal correndo de mãos dadas e se jogando na beira do mar. Os sorrisos quase podiam ser ouvidos, apesar da distância. Os dois se abraçavam e se afastavam enquanto as gargalhadas aumentavam. Trajavam roupas que não combinavam com a praia, talvez tivessem acabado de chegar e correram direto para ver o mar.


“Entendo eles. Entendo demais.”



Parou e descansou o cooler no chão. Jogou a camisa dentro, olhou a hora no celular e o guardou novamente junto da toalha.



Entrar no mar sempre vinha acompanhado do mesmo ritual: tocar a água com uma das mãos para senti-la de verdade, como se os pés ainda não tivessem se molhado antes. A mão úmida subia até a testa e seguia o caminho da cruz pela face. O pensamento mudava, e ele ouvia a própria voz dentro da cabeça agradecendo por aquele momento. A fé o deixava em silêncio e imóvel por alguns segundos, até o instante em que jogava o corpo contra a pequena onda que vinha em sua direção. Furou a onda com um movimento que lembrava um golfinho saltando. O corpo agora estava completamente molhado e, apesar do tempo fechado, a água permanecia morna, típica do nordeste brasileiro. Ao emergir, passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto, retirando a água dos olhos.



A costa era maravilhosa. Admirava os coqueirais e as cadeiras, mesas e guarda-sóis organizados em meio às cores espalhadas pela praia. A natureza tinha algo de divino, e a vida parecia caminhar colada a isso.



O tempo passava devagar. A maré calma e as águas quentes eram um convite perfeito para se desligar de tudo. Nunca aprendera a boiar. Resolveu tentar novamente e, mais uma vez, não conseguiu. Ainda assim, permaneceu com o corpo virado para o céu, encarando aquela imensidão cinza formada por nuvens que pareciam ter se unido em uma só. Naquele momento, pensava apenas em por que cargas d’água nunca aprendera a boiar.



Apesar de estar sem relógio, sentiu que já era hora de sair do mar. Caminhou até o cooler, pegou a toalha e enxugou as mãos e o rosto. Depois, tirou o celular para ver as horas e checar se havia alguma mensagem para responder, afinal, aquele dia voltaria a se transformar em dia útil no fim da tarde.



“É... parece que terminou a calmaria”, murmurou.


Chegara o momento de deixar o paraíso para trás. Antes disso, olhou em volta, ergueu o celular e resolveu tirar mais algumas fotos. Avistou uma jangada sobre a areia e pensou que ali renderia um bom clique.



Quando se abaixou para pegar o isopor, sentiu uma pancada no pescoço. Ergueu-se rapidamente e levou a mão ao lado esquerdo da cabeça, próximo à orelha. A dor foi instantânea e intensa. Olhou ao redor e avistou uma abelha. Tentou acertá-la com a toalha, mas foi em vão. Quando se virou para tentar outro golpe, percebeu que havia outras, rondando-o.


Uma sensação de medo percorreu seu corpo inteiro. “Mais picadas não seriam nada bom”, pensou.


Rapidamente jogou o celular dentro do isopor, enquanto a outra mão se movia freneticamente, afastando as abelhas que o perseguiam com o zumbido incessante. Saiu em disparada em direção ao mar. Correu como nunca antes. O incômodo atrás da cabeça aumentava, e a sensação era de ter sido golpeado por algo muito maior que um simples inseto. Chegou à água, mas nem precisou mergulhar. Percebeu que as abelhas não o haviam seguido. Ficou imóvel, passando a mão sobre o machucado na esperança de aliviar a dor.



Olhou em volta. Fixou o olhar nas pessoas espalhadas pelas barracas de praia e percebeu que ninguém o observava. “Talvez ninguém tenha visto”, pensou.



Depois de algum tempo encarando o cooler abandonado e o espaço ao redor, resolveu voltar. Em um movimento rápido, segurou a alça do isopor e se afastou do local do ataque. Parou na parte da areia fofa e olhou mais uma vez, procurando as abelhas. Percebeu ali, naquele instante, que aquela seria sua última visão do mar naquela viagem incrível. Respirou fundo, passeou o olhar pelo horizonte e se virou.


A dor ainda estava lá, e provavelmente continuaria por algum tempo. Agora, além das inúmeras fotos guardadas no celular, também levaria consigo uma história para contar.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Dias especiais

Tirei uns dias para descansar. Resolvi viajar e dar uma colher de chá - ainda que não total - para o lado da minha cabeça dedicado ao trabalho. A ideia tem funcionado bem. Até então, posso bater no peito e dizer: sim, essa viagem será lembrada como a viagem do repouso.
Talvez eu esteja enganado, mas não me lembro de outras viagens em que tenha passado boa parte do tempo deitado ou simplesmente no local onde me hospedei.
As viagens costumam se transformar em períodos nos quais ando muito, vivendo em zigue-zague por lugares que despertam a curiosidade do meu eu turista. Gosto disso. Gosto de me mover, visitar os pontos turísticos e, dependendo do local e da distância, opto por caminhar.

Os dias “off” são poucos. Pouquíssimos, na verdade. Cabem nos dedos de uma mão, e sendo sincero, talvez nem isso. Ainda assim, possuem um valor tremendo.

Escolhemos uma praia para os dias de descanso. O curioso é que moramos em uma praia, e os dias de lazer também acontecem em outra praia.

O pôr do sol no dia em que chegamos foi arrebatador. Um “bem-vindo” especial. O brilho amarelado que surgia no horizonte, por trás das dunas e das estruturas das turbinas eólicas, preenchia todo o ambiente. A luz do sol, que aos poucos desaparecia, marcava o chão duro e ainda molhado da praia.
A mudança da maré alta para a baixa é a que mais aprecio. Além de nos presentear com a calmaria das ondas, ela revela a faixa de areia dura que, até poucos minutos antes, estava sob o vai e vem do mar. Essa parte permanece coberta por uma fina lâmina d’água.
Para os apreciadores dos últimos momentos do sol do dia, isso é um bônus: o resultado é um imenso espelho no chão.

Ir à praia com tempo de sobra é saboroso. Carrega uma doçura leve, no ponto ideal, daquelas que nem o mais paranoico adepto de um regime rigoroso seria capaz de vetar. Uma maravilha agridoce, misturada ao sal presente na água e no ar.
É aquele sal que parece curar tudo. Que alivia e rejuvenesce a mente. Lava o corpo e a alma simultaneamente.

Tivemos dois dias de sol e dois dias de chuva. Os dias de sol poderiam ser chamados de “dias das cores”, porque neles tudo transborda e brilha. Tudo ganha vida em forte saturação. E, quando digo “tudo”, me incluo também, pois rapidamente troco a capa pálida que carregava por uma pele bronzeada e viva.
Estranhamente, foi justamente em uma manhã de sol e céu azul que finalizei a leitura de um livro. Deitado em uma preguiçosa sob a sombra, ao lado da piscina, interagindo vez ou outra com as pessoas que me acompanhavam nesses dias especiais.

Dias especiais e inesquecíveis.

sábado, 9 de maio de 2026

O dia tá marcado

Estou na contagem regressiva, na espera dos tão aguardados dias de descanso. A palavra "espera" remete à "esperança", ao pensamento positivo que tudo dará certo.
Os dias próximos a data agendada costumam ser rápidos, com cada minuto vivido intensamente, tudo tem que se encaixar, organizar, higienizar. São dias importantes. Os dias que antecedem o descanso/viagem/evento fazem a mente projetar o que deve vir pela frente. Sim, é inevitável a ansiedade, não tem como ser indiferente a isso. Quase tudo nos adianta no tempo e nos leva ao dia esperado. Em tempos de algoritmo, redes sociais e aparelho celular que tudo ouve, vira rotina surgir em sua tela menções, matérias, curiosidades e tantas coisas mais sobre o lugar para o qual você está no aguardo de ir.

Já que estou falando de dias, e por enquanto ainda no "pré", que tal adiantar o tempo e chegar no "pós"?
Bom, aqui fica entediante. O "day after" representa o início de uma (nova) contagem que nem se sabe exatamente quando vai ser finalizada. O show que você tanto esperou e curtiu aos montes acabou, quando será a próxima turnê? É uma sensação cansativa. Você viveu o ápice, curtiu o que estava nos planos, e agora? O que fazer? Como retornar a uma rotina sem saber nem que horas é o pôr do sol, por exemplo?
É como o dia após o seu aniversário: os sorrisos, mensagens, abraços e felicitações repousaram depois da madrugada. A diferença aqui é que a data pra viver tudo isso novamente já está marcada. E quando não há essa opção definida?

Viu?
Percebeu como é tediante o dia após? A minha mensagem assegurou em definitivo a chatice.

Vamos focar no dia D e curtir tudo por inteiro como se não houvesse amanhã. Com moderação e responsabilidade, é claro.
As boas energias focadas no dia do evento, no dia de descanso, no dia tão aguardado, no dia em que você mesmo vai se dar os devidos parabéns por existir.

Até lá.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A bicicleta se foi

 Hoje enviei a minha bike para ficar exposta em uma loja, para ser vendida. Na verdade, já existe uma pessoa interessada nela, e foi justamente por isso que a levei até lá: para que essa pessoa pudesse vê-la de perto.


Espero que seja adquirida. Definitivamente, aquela bicicleta não foi feita para ficar parada.



Ela representa uma fase da minha vida da qual gosto de lembrar, quando o vento batia forte no meu rosto, fruto das minhas próprias forças, seja pedalando ou correndo. Quanto mais eu me esforçava, maior era o vento. Falando assim, parece que isso aconteceu na minha infância ou adolescência… mas não. Não foi tão longe assim. Apenas 10 anos me separam disso tudo.
Não é algo distante, nem impossível de reviver, mas, para isso, eu precisaria, de certa forma, “renascer” naquele outro eu de pouco mais de 10 anos atrás.



Sempre fui de praticar esportes. Futebol e bicicleta estão muito presentes nas minhas memórias. Vários lugares da minha cidade, por onde passo ou que ouço alguém citar, imediatamente me trazem lembranças, eu jogando bola ou passando por ali de bicicleta.



Antes da bike que hoje coloquei na traseira do carro, tive outra. Comprei com a ideia de ir trabalhar nela e fazer alguns passeios aleatórios. E foi exatamente isso que fiz. Com o tempo, percebi que poderia investir um pouco mais e ter uma bicicleta com melhor tecnologia: peças mais leves, melhor desempenho, mais aerodinâmica.



Durante essa busca, a bike que hoje estava sobre o carro parecia um sonho distante. O valor era alto, e ela chamava atenção por onde passava… “e se eu for assaltado?” - esse era um pensamento que sempre me incomodava. Mesmo assim, depois de semanas procurando, eu comprei. Por três anos, ela foi meu meio de transporte para o trabalho - inclusive em dias de chuva. Claro que também foi minha parceira em vários passeios. O mais inesquecível? Fortaleza - Pecém.



Depois da mudança de Fortaleza para o Pecém, passei a pedalar menos. E isso aconteceu antes mesmo da inauguração do Lounge, então não posso colocar a culpa na minha rotina atual. A verdade é que a rotina de hoje é fruto de quem eu sou agora - e tenho plena consciência disso. E, como eu disse antes, para voltar a ser aquela versão mais ativa, depende exclusivamente de mim.



Pedalar, correr, nadar, ir à academia… tudo isso fez parte da minha vida de forma constante por cerca de quatro anos. Tenho várias histórias desse período, e o melhor: sem aperreios. Eram momentos com começo, meio e fim felizes.



Fui inspiração. Várias pessoas se juntaram a mim. Criamos um grupo de natação no mar. Outros compraram bicicletas. Alguns começaram a correr. Passei a encontrar amigos na academia. Eu sei o quanto tudo aquilo me fazia bem. Os momentos ligados ao esporte reuniam tudo: a energia da academia, as parcerias, o prazer solitário de pedalar, e também o meu eu quando estava nadando ou correndo. Eram momentos de bem-estar, de corpo e mente.



Deixei tudo isso para trás. E sinto falta.


A ida da bike hoje escancarou isso.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Manhã de Domingo

Manhã de domingo de carnaval. Tá aí um momento bacana, principalmente para quem não enfiou o pé na jaca no dia anterior. Eu estou na lista, na verdade nem bebi nada alcoólico. Manhã de domingo tem algo de extraordinário, acho que nela reside uma preguiça criativa, um olhar para tudo, a motivação para finalizar algo que estava parado, a criatividade viva para transformar um período da semana em algo sem data de validade. Lionel Richie sabe do que estou falando, e comparou a manhã de domingo a algo “fácil” ou “tranquilo”. Ele está corretíssimo.



Pela janela avisto uma pessoa passando com uma camisa de futebol. Branca, com uns detalhes em azul. Nas costas, o nome: Son. Fico imaginando um sul-coreano curtindo o carnaval no Brasil. Provavelmente venderam a ele o calor do Ceará - e ele caindo no golpe, percebe que nessa época do ano a chuva surge vez por outra. O pensamento é bobo, e foi a partir disso que resolvi sentar para escrever sobre essa manhã de domingo. Uma história pra gringo ver.



Antes de começar a escrever criei minha 75ª playlist musical no Spotify - contando apenas meu perfil, se somar ao perfil do Lounge, somo aí mais 25. Há de tudo, elas obedecem temas, playlists para dias históricos, “best of” de determinado artista e outras regras quebráveis. Após a criação da lista, percebo que já tinha uma semelhante, porém a de hoje foi regada a músicas “Lado B”, e isso faz uma enorme diferença.



Por fim, e muito importante, percebo que não tenho a versão original de “Easy” em minhas playlists, desde 92 adotei a versão do Faith No More, que é um erro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Fenômeno Verde

Chegamos ao dia que afeta duas em cada três piscinas nessa segunda-feira pós-feriadão: a coloração verde.



É duro escapar do fenômeno. Durante os dias de folga e de uso quase ininterrupto, até há tempo para limpeza, mas o apagar das luzes do feriado é sempre o mais curtido: o banho mais demorado. Ninguém cede os últimos minutos para adicionar o cloro.



Essa paleta de cores que entristece qualquer criança é resultado de várias coisas deixadas ali - não, não estou falando do que você está pensando. No feriado da virada do ano, despeja-se um ano inteiro de cansaço, arrependimentos, stress e outras tantas coisas que destroem o azul piscina. É quase impossível lutar contra essa sujeira.


A volta à cor desejada exige tempo, cuidado e atenção, como uma tarde reservada para limpar o armário e revirar as gavetas da cômoda. Paraíso de uma pessoa memorialista. Há muita coisa ali, às vezes mais que um ano inteiro. Mesmo em tempos tecnológicos, os papéis e boletos insistem em aparecer, brotam naquela gaveta agora visitada, junto do panfleto amassado ou do cartão bonito do estacionamento do shopping. No fim, tudo é lixo, mas é inevitável que alguns objetos façam você voltar no tempo e lembrar de baitas momentos.



Piscina, gaveta e armário merecem limpeza, cuidado e atenção. Neles residem tranquilidade, sossego, calma, relaxamento e mais alguns adjetivos preguiçosos.



Pra finalizar: sim, misturei piscina, gavetas e armário no mesmo texto.


Feliz 2026!

domingo, 23 de novembro de 2025

Tempo Rei

 Esse texto é sobre algo que eu não tinha pensado em colocar no papel: a sensação e a emoção do show do Gil em Fortaleza. Hoje, ainda pensando na apresentação, senti vontade de registrar o que vivi ali.


A importância de Gil para tantas pessoas sempre me chamou atenção, especialmente pelo fato de ele representar inspiração, mudança e até disciplina na vida de muita gente. É muito bom ter alguém para admirar, respeitar e usar como referência — não pelo medo, mas por um tipo de respeito que se sente de longe. Nos dias que antecederam o show, li muitos comentários elogiando a apresentação: a forma como é conduzida, a sequência, a vitalidade dele. E realmente, a vitalidade de Gil é algo admirável. Ele parece curtir o momento como se fosse a primeira vez… ou a última.



Não sou um profundo conhecedor da obra dele. Lembro de ter parado para ouvir Kaya N’Gan Daya e a trilha de Eu, Tu, Eles. No geral, conheço o que sempre tocou nas rádios. E ali, quando surgiram músicas que eu não conhecia, não houve cansaço algum, pelo contrário. Foi bom ouvir aquela novidade que poderia ter vindo da praia, da serra ou da cidade. A cabeça de Gil passeia por tudo. A variedade das letras e melodias desperta só coisas boas. Em certo momento, ele comentou sobre as várias gerações presentes na plateia, famílias que dificilmente se encontram juntas em um mesmo show. 

O público estava em sintonia, sem empurra-empurra, com uma educação exemplar - quase um reflexo das letras de Gil. Ele pensa muito, pensa longe, e comunica de forma clara e única. Fiquei (e ainda estou) admirado com tudo. Esse foi o terceiro show dele que vejo: o primeiro em um festival e o segundo no Trinca de Ases. No Trinca, o respeito era algo que dava para sentir de longe.



Revisitando tudo isso, percebo que essa boa sensação de estar diante do trabalho de alguém que te faz bem é algo raro e especial. Há momentos em que se está ali apenas absorvendo, como quem assiste não só a um show, mas a alguém que conseguiu atravessar gerações carregando significado, inteligência e sensibilidade. E é esse tipo de experiência que dá vontade de registrar.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Avião no ar

Hoje à tarde vi um avião no ar. 
Onde moro não é comum passarem aviões. Observei-o passando, cortando o céu azul e deixando uma linha branca de fumaça pelo caminho. Ali estão algumas dezenas de pessoas, dezenas de destinos, alguns cheios de alegria por estarem indo ao encontro de alguém ou a algum lugar, outros tantos com as bagagens carregadas de boas lembranças voltando para casa. Elas estão sendo carregadas a 800 km por hora. Quem está lá em cima nem percebe isso, muito menos se alguém a 10 mil metros abaixo está parado olhando para cima tentando visualizar os tantos rostos naquela pequena multidão. 

Para mim, dois momentos são cruciais no trajeto: pouso e decolagem.
Quando o avião enfim chega ao voo de cruzeiro, e a sensação de algo destampando o ouvido chega junto com vários sons de cintos de segurança se soltando, é um momento de tranquilidade dentro da viagem. No pouso ou na decolagem não tem isso. O que se tem é aquele pensamento de pedir para a aeronave ir mais rápido o possível ou que os freios funcionem de forma correta. Acredito que esse sentimento é de quase 100% dos passageiros, mas claro que tem aqueles que não se incomodam com nada, como aquelas pessoas que fazem tatuagem e conseguem dormir durante a sessão. Eu invejo quem consegue dormir durante toda a viagem. Eu não consigo, tem sempre algo me incomodando. Os campeões nesse assunto são: turbulência e poltrona. 
Após alguns voos, a turbulência me incomoda um pouco menos. Costumo olhar para a tripulação quando o avião começa a passar por "cima dos buracos", fui percebendo que eles seguiam o trabalho de distribuir o lanche, por exemplo, da mesma forma que estavam antes da turbulência, então aquilo definitivamente é normal. Já a poltrona... bem, a poltrona não tem jeito. 

Um livro costuma ser o meu companheiro de viagem - até porque minha principal parceira costuma sempre estar dormindo. A história no livro me leva para outra viagem, para outro lugar antes mesmo do pouso.
Quando estou lá em cima, olho para o solo. Consigo ver serras, mar e casas. Pessoas, definitivamente, não as vejo.

  © Blogger template 'Perfection' by Ourblogtemplates.com 2008 e revisto por Tarso Marques

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