Resolveu aproveitar a hora disponível para dar o último mergulho no mar antes de retornar à rotina normal. Era manhã, e mais tarde ele teria compromisso de trabalho. Passara cinco dias longe das obrigações diárias, as mini férias haviam sido muito bem aproveitadas em um pequeno lugar no litoral.
A cidade, com cara de vila de pescadores, era daqueles lugares que pareciam sair de um conto literário. Ruas pequenas, todas calçadas com paralelepípedos cuidadosamente assentados, literalmente à mão. As casas, com fachadas coloridas que lembravam um arco-íris sem qualquer compromisso com a ordem das cores, deixavam o ambiente ainda mais mágico. Portas e janelas de madeira reforçavam o charme simples do vilarejo, que parecia seguir uma silenciosa regra quanto à altura máxima de cada imóvel. E claro, sem esquecer da fina areia que ocupava trechos da rua principal, deixando evidente que a praia estava logo ali, próxima de qualquer ponto da vila.
Ele colocou a camisa vermelha no ombro, vestiu uma bermuda azul, pegou um pequeno cooler, guardou a toalha e o celular dentro e seguiu em direção à praia. O tempo estava nublado, mas isso nem de longe chegava a preocupá-lo naquele momento. A mente já vivia um conflito: a paz do lugar se chocava com a volta da vida urbana, onde motos e buzinas ocupariam o espaço que agora pertencia ao zumbido dos insetos vindos do mangue próximo.
“Perda da calmaria vestida de alegria”, pensava, enquanto já avistava o vai e vem das ondas alguns metros à frente.
Pôs os pés na areia. Não havia muito vento naquele momento. Nessa época do ano, os dias se alternavam entre chuva e sol, não havia espaço para os ventos fortes, o segundo semestre era reservado a eles.
Chegou à parte mais dura da areia e percebeu que a maré estava baixa, deixando o mar bem recuado. Era exatamente esse tipo de praia que mais lhe agradava: vasto espaço de areia e águas mansas, com ondas que mais lembravam uma lagoa.
Enquanto caminhava em direção à água, avistou um casal correndo de mãos dadas e se jogando na beira do mar. Os sorrisos quase podiam ser ouvidos, apesar da distância. Os dois se abraçavam e se afastavam enquanto as gargalhadas aumentavam. Trajavam roupas que não combinavam com a praia, talvez tivessem acabado de chegar e correram direto para ver o mar.
“Entendo eles. Entendo demais.”
Parou e descansou o cooler no chão. Jogou a camisa dentro, olhou a hora no celular e o guardou novamente junto da toalha.
Entrar no mar sempre vinha acompanhado do mesmo ritual: tocar a água com uma das mãos para senti-la de verdade, como se os pés ainda não tivessem se molhado antes. A mão úmida subia até a testa e seguia o caminho da cruz pela face. O pensamento mudava, e ele ouvia a própria voz dentro da cabeça agradecendo por aquele momento. A fé o deixava em silêncio e imóvel por alguns segundos, até o instante em que jogava o corpo contra a pequena onda que vinha em sua direção. Furou a onda com um movimento que lembrava um golfinho saltando. O corpo agora estava completamente molhado e, apesar do tempo fechado, a água permanecia morna, típica do nordeste brasileiro. Ao emergir, passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto, retirando a água dos olhos.
A costa era maravilhosa. Admirava os coqueirais e as cadeiras, mesas e guarda-sóis organizados em meio às cores espalhadas pela praia. A natureza tinha algo de divino, e a vida parecia caminhar colada a isso.
O tempo passava devagar. A maré calma e as águas quentes eram um convite perfeito para se desligar de tudo. Nunca aprendera a boiar. Resolveu tentar novamente e, mais uma vez, não conseguiu. Ainda assim, permaneceu com o corpo virado para o céu, encarando aquela imensidão cinza formada por nuvens que pareciam ter se unido em uma só. Naquele momento, pensava apenas em por que cargas d’água nunca aprendera a boiar.
Apesar de estar sem relógio, sentiu que já era hora de sair do mar. Caminhou até o cooler, pegou a toalha e enxugou as mãos e o rosto. Depois, tirou o celular para ver as horas e checar se havia alguma mensagem para responder, afinal, aquele dia voltaria a se transformar em dia útil no fim da tarde.
“É... parece que terminou a calmaria”, murmurou.
Chegara o momento de deixar o paraíso para trás. Antes disso, olhou em volta, ergueu o celular e resolveu tirar mais algumas fotos. Avistou uma jangada sobre a areia e pensou que ali renderia um bom clique.
Quando se abaixou para pegar o isopor, sentiu uma pancada no pescoço. Ergueu-se rapidamente e levou a mão ao lado esquerdo da cabeça, próximo à orelha. A dor foi instantânea e intensa. Olhou ao redor e avistou uma abelha. Tentou acertá-la com a toalha, mas foi em vão. Quando se virou para tentar outro golpe, percebeu que havia outras, rondando-o.
Uma sensação de medo percorreu seu corpo inteiro. “Mais picadas não seriam nada bom”, pensou.
Rapidamente jogou o celular dentro do isopor, enquanto a outra mão se movia freneticamente, afastando as abelhas que o perseguiam com o zumbido incessante. Saiu em disparada em direção ao mar. Correu como nunca antes. O incômodo atrás da cabeça aumentava, e a sensação era de ter sido golpeado por algo muito maior que um simples inseto. Chegou à água, mas nem precisou mergulhar. Percebeu que as abelhas não o haviam seguido. Ficou imóvel, passando a mão sobre o machucado na esperança de aliviar a dor.
Olhou em volta. Fixou o olhar nas pessoas espalhadas pelas barracas de praia e percebeu que ninguém o observava. “Talvez ninguém tenha visto”, pensou.
Depois de algum tempo encarando o cooler abandonado e o espaço ao redor, resolveu voltar. Em um movimento rápido, segurou a alça do isopor e se afastou do local do ataque. Parou na parte da areia fofa e olhou mais uma vez, procurando as abelhas. Percebeu ali, naquele instante, que aquela seria sua última visão do mar naquela viagem incrível. Respirou fundo, passeou o olhar pelo horizonte e se virou.
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