terça-feira, 21 de julho de 2026

Copa do mundo 2026

A Copa do Mundo 2026 acabou. Foi bacana curtir as várias fases da competição, e nem estou me referindo à chave de grupos ou aos tais "mata-matas". Gosto de tudo, como saber como as equipes estão se preparando, de ver a onda de felicidade dos jogadores convocados e da festa da torcida nas sedes. A tal contagem regressiva, tudo que envolve a competição até a bola começar a rolar.
Guardo com alegria os dias de Copa em Fortaleza, quando a cidade se tornou, em algumas vezes, o centro do futebol no mundo.

Mas vamos deixar a Copa de 12 anos atrás e retornar para a atual, que ganhou o nome de "Maior Copa de Todas", devido ao número recorde de seleções participantes: 48!
Como é feito em todas as Copas, essa experimentou algumas novas regras, e o que percebi foi uma preocupação com a cera. O tempo gasto na troca de jogadores, no tiro de meta ou no arremesso lateral sofreu alterações.
E deve ser implantado em diversas competições.

A Copa de 26 também foi a das novas palavras e frases da bolha chamada futebol: "Atacar o espaço", "bloco alto", "latereio", "impedimento semiautomático" e tantas outras tomaram conta das transmissões. Além disso, foi inserida oficialmente a "parada para hidratação", dois ou três minutos de pausa em cada tempo de jogo para os jogadores se reidratarem, isso independente de a partida estar sendo realizada num sol escaldante ou numa noite fria. Na maioria das vezes, o apito do juiz indicando a parada era acompanhado de uma sonora vaia vinda das arquibancadas. Futebol definitivamente não combina com paradas, algo que o americano, país-sede, adora.

O Brasil ficou pelo caminho; na verdade, não deixou saudades, percorreu uma estrada sem lembranças. Olhando para trás e relembrando alguns jogos, a sensação é de que a equipe não esteve bem em nenhum momento... Ok, houve lampejos aqui e ali, mas nada que marque, nada que vire memória... Aliás, qual a lembrança que teremos dessa Copa? Qual imagem ficou além do jogo da eliminação?

O torneio entregou um bom divertimento, porém apenas um punhado de jogos bons de assistir e gols bonitos. É estranho, mas a impressão que dá é que os times estão jogando da mesma forma, as características estão ficando de lado, salvo poucas exceções, como Espanha e Japão, que seguem fielmente aos seus estilos. Sinto falta da irresponsabilidade das seleções africanas, que costumava ser o motivo das derrotas. Hoje em dia, eles seguem perdendo as partidas nos últimos minutos, porém sem jogar a culpa na displicência que era tão tradicional.

A Espanha venceu. Ela veio mostrar brilho nas semifinais, quando anulou totalmente a poderosa França. O já tradicional domínio de bola espanhol não resultou em muitos gols marcados ou perdidos, longe disso, porém a defesa é algo que deve ser aplaudido e estudado: levou apenas um gol em toda a competição. Na finalíssima, neutralizou a não grata Argentina e não levou nenhum chute à meta.

A taça ficou em boas mãos.

Como essa Copa será lembrada no futuro?

domingo, 12 de julho de 2026

O padeiro morreu

 O padeiro morreu. Os pouco mais de três mil moradores do pequeno vilarejo ainda não sabiam da notícia. O vigia, que também era frentista do único posto de gasolina da cidade, foi o primeiro a descobrir. Durante a madrugada, o carro responsável pelo recolhimento do corpo parou no posto para pedir informações sobre onde ficava a padaria. O frentista custou a acreditar no que acabara de ouvir. Todos os dias, após terminar o turno, passava na padaria para buscar alguns pães quentinhos antes de voltar para casa. Naquela manhã, porém, chegou de mãos vazias. O filho mais novo iria para a escola sem tomar café da manhã. O mais velho seguiria para o açougue de estômago vazio. Foi então que um pensamento ainda mais inquietante lhe ocorreu. "Será que o açougueiro vai trabalhar hoje?" E, se não fosse, de onde sairia a carne do almoço? E o restaurante, como faria?



O padeiro morreu. Às seis da manhã, uma fila já se formava na porta da padaria. Não havia cheiro de pão quente pairando no ar, nem qualquer sinal de movimento. - O que houve? Como ele ousa atrasar tanto hoje? - perguntou a responsável pelo caixa da lotérica. Ninguém no vilarejo sabia do triste acontecimento, além do vigia-frentista. Resolveram, então, chamar o único chaveiro da cidade para abrir o portão da padaria. Enquanto isso, a fila aumentava. O entregador de água, a recepcionista do pet shop, o mototáxi, o gari, o vendedor da loja de móveis, o relojoeiro... Aos poucos, o pequeno vilarejo inteiro parecia concentrar-se diante daquela porta fechada. Alguns censuravam o padeiro. Outros não conseguiam acreditar na audácia daquele atraso. "Quem ele pensa que é?" - Era a mais educada entre tantas perguntas e reclamações que já beiravam a ofensa.



O padeiro morreu. O terminal rodoviário estava vazio. Ninguém tinha ido trabalhar. As três pequenas lojas do local - a venda de bilhetes, a lanchonete e a loja de artesanato - permaneciam fechadas. Pontualmente às 6h30, o primeiro ônibus intermunicipal entrou na cidade. O motorista estranhou o silêncio. Não havia passageiros esperando, nem funcionários circulando pelo terminal. O único passageiro que desembarcou olhou para um lado, depois para o outro. Não viu ninguém. Resolveu caminhar para casa. Antes, porém, passaria na padaria.



O padeiro morreu. O chaveiro chegou e abriu o portão. Todos se amontoaram em frente à porta quando ela finalmente se abriu. A curiosidade era maior que a impaciência. Na área de atendimento não havia ninguém. Resolveram seguir até os fornos e os maquinários. Tudo estava parado. Tudo estava em silêncio. Não havia ninguém ali, pois o padeiro morreu.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

À Distância - Parte 1

A atenção dela estava toda voltada para o livro em suas mãos. A leitura de romances investigativos a encantava. Costumava buscar sinopses e autores conhecidos por misturar mistério e histórias sensuais. Adorava se imaginar envolvida com personagens investigadores, para ela, eram eles que costumavam receber as descrições mais interessantes. Homens ou mulheres inteligentes, bem vestidos e com um humor acima da média. Esses eram os adjetivos que mais a atraíam.


Ela estava em um shopping, sentada em um banco, aproveitando os minutos restantes da pausa para o almoço. Levantou a cabeça e passou a observar o vai e vem de pessoas à sua frente. A ideia era encontrar, entre desconhecidos, o personagem por quem acabara de se apaixonar durante a leitura. A busca foi em vão. Balançou a cabeça negativamente e voltou a atenção para o livro.


"Enfim uma pequena movimentação no quarto que ficava no prédio do outro lado da rua. Ele arregalou os olhos, com toda a atenção voltada para o ambiente quase às escuras logo à frente. Era noite, e a iluminação precária no topo do edifício onde estava servia como um excelente esconderijo para a espionagem. Colocou a câmera fotográfica diante dos olhos e, com o auxílio do zoom, passou a observar o interior do imóvel à frente. As duas janelas mostravam exatamente o que ele queria: a sala e o quarto.
O casal atravessou a sala. O homem conduzia a mulher pela mão. Ele conseguia ouvir risos abafados pelo barulho de motos e carros que transitavam na rua, três andares abaixo. O prédio antigo, localizado em uma rua pouco movimentada no centro da cidade, servia como o reduto perfeito para um casal de amantes. Pelo menos até aquele momento.
Gil mantinha a câmera totalmente direcionada para a cama, aguardando o casal. Mas nenhum sinal de movimento.


'Onde estão eles?', pensou.


Gil havia sido contratado, duas semanas antes, por uma granfina muito rica. O encontro aconteceu dentro do automóvel dela, estacionado em um parque. A conversa foi rápida e sem rodeios. Ela foi direta ao dizer que suspeitava de uma traição por parte do namorado. No carro estavam apenas os dois, no banco traseiro, e o motorista, que escutava tudo em silêncio. Gil reparou que, durante toda a conversa, o motorista não tirava os olhos da patroa, e a maneira como os dois trocavam palavras parecia diferente.

'Acho que vou espionar alguém a mando de quem deveria ser espionada', pensou Gil.


O quarto, mal iluminado por uma lâmpada amarelada e móveis escuros, não ajudava no trabalho de Gil. Muito menos o casal, que entrou no quarto, mas não foi para a cama. O tempo passava, mas Gil, um detetive acostumado com esse tipo de trabalho, permanecia com os olhos presos no local.
Então, num piscar de olhos, a mulher se jogou sobre a cama, completamente despida. A pele branca em paz com a fraca iluminação do ambiente a deixava mais sensual, com as curvas do corpo se perdendo nas sombras, um convite para um parceiro curioso. Ela exibia um sorriso largo, os cabelos pareciam molhados. Virou-se de lado, deixando as costas voltadas para a janela, não parecia se importar com o prédio do outro lado da rua. Ela conversava com alguém que permanecia fora do campo de visão.
Gil se recriminou por não ter fotografado o casal quando atravessou a sala."



Ela conferiu as horas no relógio e percebeu que tinha apenas alguns minutos.

A história caminhava justamente para o ponto de que ela mais gostava: quando o suspense da descoberta se misturava ao odor do sexo. Achou melhor terminar a leitura em casa.



Voltou a observar as pessoas que passavam de um lado para o outro até enxergar alguém de rosto familiar. Na verdade, um rosto diferente e conhecido ao mesmo tempo. Ela estreitou os olhos, num movimento de buscar, ao mesmo tempo, uma visão mais nítida e alguma lembrança esquecida. A pessoa estava um pouco distante, posicionada de lado, atenta à televisão que exibia as opções do restaurante, completamente alheia àquela observação.


Enfim o reconheceu.



De imediato, uma onda de frio percorreu todo o seu corpo. Parecia um fantasma surgindo diante dela. Mas não. Era um ex-ficante. Não o via havia mais de quinze anos. Ele estava diferente. Cabelos curtos, bem aparados, vestindo roupas claras, impecáveis e alinhadas. "Será que aquele Romeu que conheci, que usava bermudas de surfista, se transformou em um homem igual aos que imagino nas histórias que leio?", pensou.



Seu olhar percorreu toda a área ao redor dele. "Ele deve estar com alguém. Não tem como estar sozinho."



Enquanto examinava as mesas próximas, procurando alguma mulher desacompanhada, colocou em prática todo o faro investigativo que vinha adquirindo nas leituras dos últimos meses. Ao mesmo tempo, tentava lembrar por que nunca havia firmado um relacionamento sério com Romeu. Ele era aventureiro por natureza. Vivia em função de carne nova, sempre atento às novidades, como um predador farejando movimento. Não existia nela qualquer arrependimento por ter sido uma de suas presas, apesar do gosto amargo de jamais ter tido o controle da relação. O bom humor e a luxúria eram suas maiores armas. Dominava como poucos a palavra certa para arrancar um sorriso malicioso de qualquer mulher que aceitasse conversar com ele a sós. E ela havia caído naquela conversa inúmeras vezes.



Ela se perguntava se deveria ou não ir até ele. Não sabia o que fazer. Olhou-se dos pés à cabeça, mexeu nos cabelos e os colocou de lado, da maneira que ele gostava de deixá-los quando passava os dedos suavemente por eles. Ajustou a camisa por dentro da calça e puxou o blazer um pouco mais para a frente. Naquele momento, agradeceu por sua farda ser escura, deixando-a mais magra.


Ele começou a caminhar em direção a ela, porém ainda não a tinha visto. Ela se levantou e passou a caminhar em direção a ele, mas resolveu desviar o olhar. Os dois se cruzaram. Logo depois, ela ouviu a voz dele perguntar:


- Cris?


Ela se virou, fitou-o e respondeu um "sim", como se estivesse falando com um estranho. Ele a olhou e perguntou novamente se o nome dela era Cris.


Iniciou-se, então, o diálogo tradicional de duas pessoas que acabavam de se reencontrar depois de muitos anos. Enquanto conversavam, ela estudava cada palavra e gesto dele, tentando descobrir sua situação amorosa. Radiante, percebeu que ele não usava aliança.


- Que maravilha te reencontrar! - disse ele, abrindo um largo sorriso. Cris não se segurou e resolveu abrir a porta do passado. - Sim. É interessante que, mesmo depois de tanto tempo, parece que estamos apenas continuando uma conversa que tivemos na semana passada, e não há mais de quinze anos.


- Verdade. - respondeu ele.


- Eu adorava as nossas conversas. - Ela chutou o balde e apostou tudo.


- Não me leve a mal, mas confesso que gostava ainda mais de como elas terminavam. Ou melhor, era sempre prazerosa a maneira como encerrávamos as nossas conversas.


- Pelo jeito, o tempo não passou, né, Romeu? Você continua o mesmo.


- Nós, Cris. Nós.



Eles estavam pegando fogo. As mãos estavam inquietas e os risos, fáceis. Tudo ali, em meio à multidão que passava de um lado para o outro. Mas eles só conseguiam ouvir um ao outro, vivendo a magia de poder voltar no tempo.


Ela o puxou para um abraço e sussurrou ao ouvido: Quero te ter hoje à noite. Às dez estarei livre.



Eles estavam juntos novamente. Após quinze anos, estavam prestes a reviver a química, ir contra a lei da física e ocupar o mesmo lugar no espaço, mostrar que, na matemática, um mais um às vezes resulta em sessenta e nove e que, na língua portuguesa, palavras sujas aceleram a respiração, despertam a força dos movimentos e transformam o suor dos dois corpos na energia necessária para repetir tudo aquilo sem pensar em parar.



Romeu deu um beijo inocente na face de Cris e disse: Antes das dez estarei aqui te esperando.


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