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segunda-feira, 6 de julho de 2026

À Distância - Parte 1

A atenção dela estava toda voltada para o livro em suas mãos. A leitura de romances investigativos a encantava. Costumava buscar sinopses e autores conhecidos por misturar mistério e histórias sensuais. Adorava se imaginar envolvida com personagens investigadores, para ela, eram eles que costumavam receber as descrições mais interessantes. Homens ou mulheres inteligentes, bem vestidos e com um humor acima da média. Esses eram os adjetivos que mais a atraíam.


Ela estava em um shopping, sentada em um banco, aproveitando os minutos restantes da pausa para o almoço. Levantou a cabeça e passou a observar o vai e vem de pessoas à sua frente. A ideia era encontrar, entre desconhecidos, o personagem por quem acabara de se apaixonar durante a leitura. A busca foi em vão. Balançou a cabeça negativamente e voltou a atenção para o livro.


"Enfim uma pequena movimentação no quarto que ficava no prédio do outro lado da rua. Ele arregalou os olhos, com toda a atenção voltada para o ambiente quase às escuras logo à frente. Era noite, e a iluminação precária no topo do edifício onde estava servia como um excelente esconderijo para a espionagem. Colocou a câmera fotográfica diante dos olhos e, com o auxílio do zoom, passou a observar o interior do imóvel à frente. As duas janelas mostravam exatamente o que ele queria: a sala e o quarto.
O casal atravessou a sala. O homem conduzia a mulher pela mão. Ele conseguia ouvir risos abafados pelo barulho de motos e carros que transitavam na rua, três andares abaixo. O prédio antigo, localizado em uma rua pouco movimentada no centro da cidade, servia como o reduto perfeito para um casal de amantes. Pelo menos até aquele momento.
Gil mantinha a câmera totalmente direcionada para a cama, aguardando o casal. Mas nenhum sinal de movimento.


'Onde estão eles?', pensou.


Gil havia sido contratado, duas semanas antes, por uma granfina muito rica. O encontro aconteceu dentro do automóvel dela, estacionado em um parque. A conversa foi rápida e sem rodeios. Ela foi direta ao dizer que suspeitava de uma traição por parte do namorado. No carro estavam apenas os dois, no banco traseiro, e o motorista, que escutava tudo em silêncio. Gil reparou que, durante toda a conversa, o motorista não tirava os olhos da patroa, e a maneira como os dois trocavam palavras parecia diferente.

'Acho que vou espionar alguém a mando de quem deveria ser espionada', pensou Gil.


O quarto, mal iluminado por uma lâmpada amarelada e móveis escuros, não ajudava no trabalho de Gil. Muito menos o casal, que entrou no quarto, mas não foi para a cama. O tempo passava, mas Gil, um detetive acostumado com esse tipo de trabalho, permanecia com os olhos presos no local.
Então, num piscar de olhos, a mulher se jogou sobre a cama, completamente despida. A pele branca em paz com a fraca iluminação do ambiente a deixava mais sensual, com as curvas do corpo se perdendo nas sombras, um convite para um parceiro curioso. Ela exibia um sorriso largo, os cabelos pareciam molhados. Virou-se de lado, deixando as costas voltadas para a janela, não parecia se importar com o prédio do outro lado da rua. Ela conversava com alguém que permanecia fora do campo de visão.
Gil se recriminou por não ter fotografado o casal quando atravessou a sala."



Ela conferiu as horas no relógio e percebeu que tinha apenas alguns minutos.

A história caminhava justamente para o ponto de que ela mais gostava: quando o suspense da descoberta se misturava ao odor do sexo. Achou melhor terminar a leitura em casa.



Voltou a observar as pessoas que passavam de um lado para o outro até enxergar alguém de rosto familiar. Na verdade, um rosto diferente e conhecido ao mesmo tempo. Ela estreitou os olhos, num movimento de buscar, ao mesmo tempo, uma visão mais nítida e alguma lembrança esquecida. A pessoa estava um pouco distante, posicionada de lado, atenta à televisão que exibia as opções do restaurante, completamente alheia àquela observação.


Enfim o reconheceu.



De imediato, uma onda de frio percorreu todo o seu corpo. Parecia um fantasma surgindo diante dela. Mas não. Era um ex-ficante. Não o via havia mais de quinze anos. Ele estava diferente. Cabelos curtos, bem aparados, vestindo roupas claras, impecáveis e alinhadas. "Será que aquele Romeu que conheci, que usava bermudas de surfista, se transformou em um homem igual aos que imagino nas histórias que leio?", pensou.



Seu olhar percorreu toda a área ao redor dele. "Ele deve estar com alguém. Não tem como estar sozinho."



Enquanto examinava as mesas próximas, procurando alguma mulher desacompanhada, colocou em prática todo o faro investigativo que vinha adquirindo nas leituras dos últimos meses. Ao mesmo tempo, tentava lembrar por que nunca havia firmado um relacionamento sério com Romeu. Ele era aventureiro por natureza. Vivia em função de carne nova, sempre atento às novidades, como um predador farejando movimento. Não existia nela qualquer arrependimento por ter sido uma de suas presas, apesar do gosto amargo de jamais ter tido o controle da relação. O bom humor e a luxúria eram suas maiores armas. Dominava como poucos a palavra certa para arrancar um sorriso malicioso de qualquer mulher que aceitasse conversar com ele a sós. E ela havia caído naquela conversa inúmeras vezes.



Ela se perguntava se deveria ou não ir até ele. Não sabia o que fazer. Olhou-se dos pés à cabeça, mexeu nos cabelos e os colocou de lado, da maneira que ele gostava de deixá-los quando passava os dedos suavemente por eles. Ajustou a camisa por dentro da calça e puxou o blazer um pouco mais para a frente. Naquele momento, agradeceu por sua farda ser escura, deixando-a mais magra.


Ele começou a caminhar em direção a ela, porém ainda não a tinha visto. Ela se levantou e passou a caminhar em direção a ele, mas resolveu desviar o olhar. Os dois se cruzaram. Logo depois, ela ouviu a voz dele perguntar:


- Cris?


Ela se virou, fitou-o e respondeu um "sim", como se estivesse falando com um estranho. Ele a olhou e perguntou novamente se o nome dela era Cris.


Iniciou-se, então, o diálogo tradicional de duas pessoas que acabavam de se reencontrar depois de muitos anos. Enquanto conversavam, ela estudava cada palavra e gesto dele, tentando descobrir sua situação amorosa. Radiante, percebeu que ele não usava aliança.


- Que maravilha te reencontrar! - disse ele, abrindo um largo sorriso. Cris não se segurou e resolveu abrir a porta do passado. - Sim. É interessante que, mesmo depois de tanto tempo, parece que estamos apenas continuando uma conversa que tivemos na semana passada, e não há mais de quinze anos.


- Verdade. - respondeu ele.


- Eu adorava as nossas conversas. - Ela chutou o balde e apostou tudo.


- Não me leve a mal, mas confesso que gostava ainda mais de como elas terminavam. Ou melhor, era sempre prazerosa a maneira como encerrávamos as nossas conversas.


- Pelo jeito, o tempo não passou, né, Romeu? Você continua o mesmo.


- Nós, Cris. Nós.



Eles estavam pegando fogo. As mãos estavam inquietas e os risos, fáceis. Tudo ali, em meio à multidão que passava de um lado para o outro. Mas eles só conseguiam ouvir um ao outro, vivendo a magia de poder voltar no tempo.


Ela o puxou para um abraço e sussurrou ao ouvido: Quero te ter hoje à noite. Às dez estarei livre.



Eles estavam juntos novamente. Após quinze anos, estavam prestes a reviver a química, ir contra a lei da física e ocupar o mesmo lugar no espaço, mostrar que, na matemática, um mais um às vezes resulta em sessenta e nove e que, na língua portuguesa, palavras sujas aceleram a respiração, despertam a força dos movimentos e transformam o suor dos dois corpos na energia necessária para repetir tudo aquilo sem pensar em parar.



Romeu deu um beijo inocente na face de Cris e disse: Antes das dez estarei aqui te esperando.


domingo, 17 de maio de 2026

Calma e agito de um Zumbido

 Resolveu aproveitar a hora disponível para dar o último mergulho no mar antes de retornar à rotina normal. Era manhã, e mais tarde ele teria compromisso de trabalho. Passara cinco dias longe das obrigações diárias, as mini férias haviam sido muito bem aproveitadas em um pequeno lugar no litoral.



A cidade, com cara de vila de pescadores, era daqueles lugares que pareciam sair de um conto literário. Ruas pequenas, todas calçadas com paralelepípedos cuidadosamente assentados, literalmente à mão. As casas, com fachadas coloridas que lembravam um arco-íris sem qualquer compromisso com a ordem das cores, deixavam o ambiente ainda mais mágico. Portas e janelas de madeira reforçavam o charme simples do vilarejo, que parecia seguir uma silenciosa regra quanto à altura máxima de cada imóvel. E claro, sem esquecer da fina areia que ocupava trechos da rua principal, deixando evidente que a praia estava logo ali, próxima de qualquer ponto da vila.



Ele colocou a camisa vermelha no ombro, vestiu uma bermuda azul, pegou um pequeno cooler, guardou a toalha e o celular dentro e seguiu em direção à praia. O tempo estava nublado, mas isso nem de longe chegava a preocupá-lo naquele momento. A mente já vivia um conflito: a paz do lugar se chocava com a volta da vida urbana, onde motos e buzinas ocupariam o espaço que agora pertencia ao zumbido dos insetos vindos do mangue próximo.



“Perda da calmaria vestida de alegria”, pensava, enquanto já avistava o vai e vem das ondas alguns metros à frente.



Pôs os pés na areia. Não havia muito vento naquele momento. Nessa época do ano, os dias se alternavam entre chuva e sol, não havia espaço para os ventos fortes, o segundo semestre era reservado a eles.



Chegou à parte mais dura da areia e percebeu que a maré estava baixa, deixando o mar bem recuado. Era exatamente esse tipo de praia que mais lhe agradava: vasto espaço de areia e águas mansas, com ondas que mais lembravam uma lagoa.


Enquanto caminhava em direção à água, avistou um casal correndo de mãos dadas e se jogando na beira do mar. Os sorrisos quase podiam ser ouvidos, apesar da distância. Os dois se abraçavam e se afastavam enquanto as gargalhadas aumentavam. Trajavam roupas que não combinavam com a praia, talvez tivessem acabado de chegar e correram direto para ver o mar.


“Entendo eles. Entendo demais.”



Parou e descansou o cooler no chão. Jogou a camisa dentro, olhou a hora no celular e o guardou novamente junto da toalha.



Entrar no mar sempre vinha acompanhado do mesmo ritual: tocar a água com uma das mãos para senti-la de verdade, como se os pés ainda não tivessem se molhado antes. A mão úmida subia até a testa e seguia o caminho da cruz pela face. O pensamento mudava, e ele ouvia a própria voz dentro da cabeça agradecendo por aquele momento. A fé o deixava em silêncio e imóvel por alguns segundos, até o instante em que jogava o corpo contra a pequena onda que vinha em sua direção. Furou a onda com um movimento que lembrava um golfinho saltando. O corpo agora estava completamente molhado e, apesar do tempo fechado, a água permanecia morna, típica do nordeste brasileiro. Ao emergir, passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto, retirando a água dos olhos.



A costa era maravilhosa. Admirava os coqueirais e as cadeiras, mesas e guarda-sóis organizados em meio às cores espalhadas pela praia. A natureza tinha algo de divino, e a vida parecia caminhar colada a isso.



O tempo passava devagar. A maré calma e as águas quentes eram um convite perfeito para se desligar de tudo. Nunca aprendera a boiar. Resolveu tentar novamente e, mais uma vez, não conseguiu. Ainda assim, permaneceu com o corpo virado para o céu, encarando aquela imensidão cinza formada por nuvens que pareciam ter se unido em uma só. Naquele momento, pensava apenas em por que cargas d’água nunca aprendera a boiar.



Apesar de estar sem relógio, sentiu que já era hora de sair do mar. Caminhou até o cooler, pegou a toalha e enxugou as mãos e o rosto. Depois, tirou o celular para ver as horas e checar se havia alguma mensagem para responder, afinal, aquele dia voltaria a se transformar em dia útil no fim da tarde.



“É... parece que terminou a calmaria”, murmurou.


Chegara o momento de deixar o paraíso para trás. Antes disso, olhou em volta, ergueu o celular e resolveu tirar mais algumas fotos. Avistou uma jangada sobre a areia e pensou que ali renderia um bom clique.



Quando se abaixou para pegar o isopor, sentiu uma pancada no pescoço. Ergueu-se rapidamente e levou a mão ao lado esquerdo da cabeça, próximo à orelha. A dor foi instantânea e intensa. Olhou ao redor e avistou uma abelha. Tentou acertá-la com a toalha, mas foi em vão. Quando se virou para tentar outro golpe, percebeu que havia outras, rondando-o.


Uma sensação de medo percorreu seu corpo inteiro. “Mais picadas não seriam nada bom”, pensou.


Rapidamente jogou o celular dentro do isopor, enquanto a outra mão se movia freneticamente, afastando as abelhas que o perseguiam com o zumbido incessante. Saiu em disparada em direção ao mar. Correu como nunca antes. O incômodo atrás da cabeça aumentava, e a sensação era de ter sido golpeado por algo muito maior que um simples inseto. Chegou à água, mas nem precisou mergulhar. Percebeu que as abelhas não o haviam seguido. Ficou imóvel, passando a mão sobre o machucado na esperança de aliviar a dor.



Olhou em volta. Fixou o olhar nas pessoas espalhadas pelas barracas de praia e percebeu que ninguém o observava. “Talvez ninguém tenha visto”, pensou.



Depois de algum tempo encarando o cooler abandonado e o espaço ao redor, resolveu voltar. Em um movimento rápido, segurou a alça do isopor e se afastou do local do ataque. Parou na parte da areia fofa e olhou mais uma vez, procurando as abelhas. Percebeu ali, naquele instante, que aquela seria sua última visão do mar naquela viagem incrível. Respirou fundo, passeou o olhar pelo horizonte e se virou.


A dor ainda estava lá, e provavelmente continuaria por algum tempo. Agora, além das inúmeras fotos guardadas no celular, também levaria consigo uma história para contar.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Dias especiais

Tirei uns dias para descansar. Resolvi viajar e dar uma colher de chá - ainda que não total - para o lado da minha cabeça dedicado ao trabalho. A ideia tem funcionado bem. Até então, posso bater no peito e dizer: sim, essa viagem será lembrada como a viagem do repouso.
Talvez eu esteja enganado, mas não me lembro de outras viagens em que tenha passado boa parte do tempo deitado ou simplesmente no local onde me hospedei.
As viagens costumam se transformar em períodos nos quais ando muito, vivendo em zigue-zague por lugares que despertam a curiosidade do meu eu turista. Gosto disso. Gosto de me mover, visitar os pontos turísticos e, dependendo do local e da distância, opto por caminhar.

Os dias “off” são poucos. Pouquíssimos, na verdade. Cabem nos dedos de uma mão, e sendo sincero, talvez nem isso. Ainda assim, possuem um valor tremendo.

Escolhemos uma praia para os dias de descanso. O curioso é que moramos em uma praia, e os dias de lazer também acontecem em outra praia.

O pôr do sol no dia em que chegamos foi arrebatador. Um “bem-vindo” especial. O brilho amarelado que surgia no horizonte, por trás das dunas e das estruturas das turbinas eólicas, preenchia todo o ambiente. A luz do sol, que aos poucos desaparecia, marcava o chão duro e ainda molhado da praia.
A mudança da maré alta para a baixa é a que mais aprecio. Além de nos presentear com a calmaria das ondas, ela revela a faixa de areia dura que, até poucos minutos antes, estava sob o vai e vem do mar. Essa parte permanece coberta por uma fina lâmina d’água.
Para os apreciadores dos últimos momentos do sol do dia, isso é um bônus: o resultado é um imenso espelho no chão.

Ir à praia com tempo de sobra é saboroso. Carrega uma doçura leve, no ponto ideal, daquelas que nem o mais paranoico adepto de um regime rigoroso seria capaz de vetar. Uma maravilha agridoce, misturada ao sal presente na água e no ar.
É aquele sal que parece curar tudo. Que alivia e rejuvenesce a mente. Lava o corpo e a alma simultaneamente.

Tivemos dois dias de sol e dois dias de chuva. Os dias de sol poderiam ser chamados de “dias das cores”, porque neles tudo transborda e brilha. Tudo ganha vida em forte saturação. E, quando digo “tudo”, me incluo também, pois rapidamente troco a capa pálida que carregava por uma pele bronzeada e viva.
Estranhamente, foi justamente em uma manhã de sol e céu azul que finalizei a leitura de um livro. Deitado em uma preguiçosa sob a sombra, ao lado da piscina, interagindo vez ou outra com as pessoas que me acompanhavam nesses dias especiais.

Dias especiais e inesquecíveis.

sábado, 9 de maio de 2026

O dia tá marcado

Estou na contagem regressiva, na espera dos tão aguardados dias de descanso. A palavra "espera" remete à "esperança", ao pensamento positivo que tudo dará certo.
Os dias próximos a data agendada costumam ser rápidos, com cada minuto vivido intensamente, tudo tem que se encaixar, organizar, higienizar. São dias importantes. Os dias que antecedem o descanso/viagem/evento fazem a mente projetar o que deve vir pela frente. Sim, é inevitável a ansiedade, não tem como ser indiferente a isso. Quase tudo nos adianta no tempo e nos leva ao dia esperado. Em tempos de algoritmo, redes sociais e aparelho celular que tudo ouve, vira rotina surgir em sua tela menções, matérias, curiosidades e tantas coisas mais sobre o lugar para o qual você está no aguardo de ir.

Já que estou falando de dias, e por enquanto ainda no "pré", que tal adiantar o tempo e chegar no "pós"?
Bom, aqui fica entediante. O "day after" representa o início de uma (nova) contagem que nem se sabe exatamente quando vai ser finalizada. O show que você tanto esperou e curtiu aos montes acabou, quando será a próxima turnê? É uma sensação cansativa. Você viveu o ápice, curtiu o que estava nos planos, e agora? O que fazer? Como retornar a uma rotina sem saber nem que horas é o pôr do sol, por exemplo?
É como o dia após o seu aniversário: os sorrisos, mensagens, abraços e felicitações repousaram depois da madrugada. A diferença aqui é que a data pra viver tudo isso novamente já está marcada. E quando não há essa opção definida?

Viu?
Percebeu como é tediante o dia após? A minha mensagem assegurou em definitivo a chatice.

Vamos focar no dia D e curtir tudo por inteiro como se não houvesse amanhã. Com moderação e responsabilidade, é claro.
As boas energias focadas no dia do evento, no dia de descanso, no dia tão aguardado, no dia em que você mesmo vai se dar os devidos parabéns por existir.

Até lá.

sábado, 11 de novembro de 2023

Davi e Tilak

Chegaram a terceira cidade com o nascer do Sol. A claridade revelou algo impressionante: uma gigantesca fita branca segurava todo o céu ao seu redor. Davi ficou mais confuso ao reparar que as árvores também não tocavam o solo, suas raízes ficavam a poucos palmos do chão. Ficou espantado com tudo aquilo em volta, e o medo em se mover a frente abafou sua fala e o paralisou. 

Tilak já estava bem a frente, não tinha parado de caminhar, já conhecia a Cidade do Ar e aquilo não era mais novidade para ele. Não demorou muito e ele percebeu que Davi estava bem atrás, parado feita uma estátua, de boca aberta a olhar o enorme laço branco segurando a cidade suspensa.
- Davi, vamos, não podemos parar – disse Tilak
- Estou com medo desse chão subir para o céu – respondeu o assustado Davi.
O solo daquela cidade não parecia tão seguro assim. - Vamos, não seja bobo, aqui na Cidade do Ar tudo fica suspenso, menos o chão – Tilak tentava tranquilizar o novo amigo.

“Cidade do Ar”, esse nome fez surgir um sorriso de leve na face de Davi. Enfim estava na terceira e ultima cidade de sua longa caminhada para juntar as três partes do cristal em forma de chave. A chave que abrirá o cadeado da enorme tranca que lhe prende naquele lugar estranho. Tinha tido a sorte de ter encontrado Tilak assim que entrou nesse novo Mundo.

Há 2 dias estava no bosque, perto de sua casa a brincar com seus amiguinhos, saiu a disparada entre as árvores, perdeu o equilibro depois que topou em uma pedra e caiu desacordado. Foi acordado justamente por Tilak. A cor azul de seu corpo e os olhos muitos grandes em um rosto pequeno e fino fez Davi se assustar e tentar bater na estranha criatura a sua frente. Com a metade do tamanho do já pequeno Davi e com apenas 3 dedos longos em cada mão e pé, Tilak assustava a qualquer um naquela ocasião. Então ele abriu a boca e disse: “calma, sou amigo, não quero lhe fazer mal”. Depois de um tempo andando assustado em ziguezague por entre as árvores e ouvindo sempre a voz daquela estranha criatura azul a lhe perseguir, Davi resolveu ceder e parou diante de Tilak e perguntou: "quem é você?"



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Texto escrito originalmente em 2007

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Segunda chance

Enfim sós. Como há muito tempo não estavam. O lugar não era o mesmo de antigamente, mas isso nem importava, o que valia realmente eram as quatro paredes os separando do mundo. Estranho, mas apesar de tudo que já haviam passados juntos, a imagem que ele sempre tinha dela era a das mais porcas, quando a viu agachada a jogar tudo o que havia consumido durante a noite, jogando também um fedor absurdo. Comida misturado à bebida barata. Os olhos caídos, a parte da roupa no chão e a que ainda a cobria totalmente molhada, suja. A lembrança não era só essa... haviam também os dois sentados, em meio a todos que estavam em pé, e apesar da barreira humana, apesar daquelas pernas inquietas, dava sim para enxergar o horizonte, mesmo que escuro.

A pergunta que surgiu nela quando estavam mais uma vez juntos foi: ‘e se naquela ocasião ele tivesse se entregado também?’ – a vista já não estava boa, quando se recorda daquela noite não a visualiza totalmente em cores perfeitas, há sempre uma mancha, um esquecimento, algo que se perdeu ou que nunca existiu em sua memória. Ela apenas sabe que se jogou, ultrapassou o medo ainda infantil que a acorrentava, e ele, que vivia a cem por hora, querendo viver perigosamente em roletas russas, enfim parou ao ver o sinal vermelho, bem antes da faixa de pedestres. A pergunta a martelava! Martelava! O que teria sido de nós? O mesmo que aconteceu e nos afastou? Ou simplesmente... ‘acho que ele ali não me viu ou que talvez agisse como o homem que sempre achei que ele foi. E nunca um covarde’ – e agora eles estavam ali, mais uma vez frente a frente, haviam vividos tantas coisas desde aquele ultimo encontro, idéias diferentes, o álcool que ainda era ingerido, mas não saia mais da mesma forma, mas sim em formas de gargalhadas e palavras desconexas. Mas o sorriso...bem, ali ainda era o mesmo, em ambos. Existia ainda claramente o ar adolescente de rir de qualquer coisa. Mais uma vez estavam juntos e os dois sabiam que uma segunda chance é privilégio para poucos. Se abraçaram, se beijaram, se excitaram, perceberam que a química ainda funcionava perfeitamente entre ambos. Ficaram assim por um bom tempo. Deitaram na cama, ela de costas pra ele, mas bem juntos e abraçados ainda. As pernas que se multiplicaram, mas mesmo assim ocupavam o espaço de duas.

Os abraços não eram fortes, assim como o sentido já não respondia corretamente a coisas lógicas e aceitáveis. Ficaram assim até perder totalmente o juízo. E dormiram.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Já esquecida

A verdade é que sempre gostei daqueles cabelos encobrindo um dos lados da face dela, dando um ar rebelde, com uma ênfase a mais na boa pintura em seus olhos. Puxadinhos. Penetrantes. Sedentos. Alegres. Aqueles olhos que me seguiam fielmente, como o olhar de um felino que espreita sua presa. As pernas grandes e finas, que se jogavam a frente numa velocidade além do normal, se enroscavam em mim como duas cobras gigantes, tentando me sufocar até a morte, deixando-me meio tonto, com o raciocínio confuso, repetindo incansavelmente frases sujas, deixando-a assim cada vez mais excitada, e com isso, forçando cada vez mais o nó que suas pernas laçavam em meu pescoço. Também não é mentira, muito menos machismo de minha parte em afirmar que aquele momento era o único que me interesava em sua pessoa. Não me interessava saber como havia sido seu dia, quanto mais se eu estaria em seus planos para algum evento importante. Apesar de às vezes me condenar por esse sentimento.
Incrível, mas a onda captada naquela foto em que um sorriso imenso brotou em seu rosto ainda costuma cair, e chego a ouvir o som dela batendo nas pedras, junto a isso, barulho de crianças correndo contra o vento e sua mão com areia limpando minhas pernas ainda estão lá. Em algum lugar que não existe mais. Do lado de alguém que não sou mais eu, ou nunca foi.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

De forma aleatória

Passando sempre por onde um dia houve uma grande passarela de ferro, havia ainda a estranha sensação que ela ainda estava lá. Enfiava-se embaixo dos lençóis junto a alguém que há anos dividia por um instante o mesmo espaço no universo, apesar de sempre se sentir daquela forma como se fosse à primeira vez. Sussurrava eroticamente nos ouvidos dele a doce sensação, que aumentava com os abraços, beijos e o suor cada vez mais presente. A doce sensação de ser a primeira vez culminava com a intimidade de anos. Um dia se perguntou o porquê de tantas pessoas cultivarem o prazer de ter embaixo das próprias asas, animais enjaulados, servindo ali como enfeite ou sendo singularmente um objeto de decoração, ela mesma já havia feito tal coisa, não a amaldiçoou por isso, muito menos quem o faz, mas descobriu a graça de tê-los por perto quando eles mesmos quiserem, dando a liberdade da escolha de passar ali o tempo necessário.

Debruçava-se diante da pia constantemente, a água que jogava em seu rosto servia como um refresco para as idéias e não só para a pele suada. O tempo ali era uma pausa disfarçada, ninguém em volta percebia, mas o real desejo era voltar a se posicionar corretamente. Lembrava vagamente das muitas idas ao centro da cidade, buscava quase que repetidamente as mesma coisas, nos mesmos lugares, era normal sair feliz com a compra de uma camisa que um dia ela chegou a detestar, assim como se irritava em ver outro alguém adquirindo uma que ela já tinha pose.

O sonho mais repetido era o que ela menos conseguia se lembrar e a mania de jogar o cabelo por trás da orelha era algo que ela queria dar por fim. Deixou de se esconder de fotos em eventos depois que percebeu que nas poucas que saia, estava sempre de maneira cômica, para não se dizer desastrosa. Parou um dia e entendeu que a vida era a mais das fiéis amiga, tinha sido sempre muito generosa com ela e agradeceu em voz baixinha por isso. Descobriu também que lembranças também podem ser vividas e contadas de forma aleatória.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Quero...

Quero te dizer que...
Quero dizer-te apenas...
Quero dizer-te somente...
Quero mostrar-lhe...
Quero que você...
Quero te explicar...
Quero falar-te...
Quero.

Ou simplesmente nada.
Nada não.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sobre nada

A calma era substituída pela raiva, daquelas incontroláveis, que fazem brotar na face uma vermelhidão assustadora, ali ele pensava em fazer tudo o que não lhe era permitido ou de bons costumes. E era sem duvidas o momento para aproveitar o sangue correndo quente em suas veias palpitantes, era a hora de pegar toda aquela lama que o cercava, o impedindo de fazer tantas coisas desejáveis, era o momento de pegar tudo aquilo e jogar contra o ventilador, sujando o rosto de todos a sua volta.
Mas ele desperdiçava, engolia metade da raiva, exalava somente o que ele não conseguia segurar, e aquilo já assustava a muitos.

O odor que exalava de suas junções incomodava não só a ele, pois ali estava à prova que o caminho trilhado estava errado, cheirando daquela forma, o máximo que conseguiria seriam migalhas de milhos, como pombos em praças das grandes cidades, e o que desejava era a luxuosa comodidade que os louros da vida poderiam lhe garantir.

Os pensamentos vagavam, sim. Sofria a cada segundo com o maldito desprezo do Mundo. Assim ele pensava e não sabia a quem recorrer, a quem para lhe proteger da infinita questão do que estava fazendo seria o certo ou errado, por meio das duvidas, o que lhe caia sobre os ombros era a idéia que tudo estava errado.
Caminhou assim por longos e tenebrosos anos... e assim continua.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"Ele & Ela" - Parte I

Olhou para o relógio e viu que àquela hora, ela já devia estar num sono ferrado. Por vezes, fases e fases, a vida se torna repetitiva. A manhã deste despertar será igual a que virá no dia seguinte. À noite, que cada vez se torna mais longa pra ela, a machuca lentamente na imensidão do silêncio da madrugada em que o mundo dorme e ela insiste em vagar pelo quarto feito um zumbi.

Perdeu o sono quando inventou de dar um jeito na bagunça que estava seu guarda-roupa. Lugar fantástico o guarda-roupa. Sem querer faz parte de todos os momentos de nossas vidas. Para onde vamos temos que antes passar por lá.
Percebeu que havia umas camisetas que ela não vestia há anos, tinham se perdido no tempo. Mas nada que uma tesoura e boas idéias não lhe trouxessem a vida de novo.
Era justamente isso que ela procurava tanto, sua vida de volta, o brilho, à vontade, a excitação em ver e fazer tantas coisas. O organizar das roupas era apenas um passatempo. Tentava em vão mudar o foco dos pensamentos. Mesmo depois de um bom tempo e a certeza que os momentos (que pareciam ser infinitos) ao lado dele não teriam volta. Ainda doía muito a traição e o abandono.

Abriu a ultima das quatro gavetas e achou um antigo caderno. Começou a folhear e viu uma carta com as maiúsculas letras do Ex.
Sentou na cama, dirigiu uma das mãos lentamente à boca que estava aberta e começou a ler a carta...

“Eu sei de tudo, descobri seu segredo. E não se preocupe, não contarei pra ninguém seus poderes. Como é o feitiço que você jogou em mim? Prometa-me que nunca vai desfazê-lo, ta bom?
Pode parecer invenção minha, mas sábado a noite foi sem duvidas a melhor noite que tive na vida.
Foi único. Foi nosso.
Mesmo com todas as condições adversas, como a grama meio molhada em que estávamos sentados e toda aquela multidão andando de um lado para o outro, parecia que estávamos a sós. Mesmo com tantas coisas ao redor com cores e barulho, a única lembrança que tenho é do seu rosto e o som das suas gargalhadas.
Espero que você tenha sentido pelo menos a metade do que eu senti... Ficarei bastante feliz.
Te adoro. Não esqueça disso, ta?"


Suspirou fundo e deixou o corpo se jogar por completo na cama. Ficou olhando para o teto durante alguns minutos, pensamento firme na bendita noite.
Releu a carta mais uma vez e depois dormiu.





Primeira parte de um pequeno conto escrito há anos, está aqui apenas para aumentar o Sanduíche

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Confissões de um enganador

Acho que o tempo parou, ou melhor, acho que aquele último trabalho que fiz, já com alguns meses, não valeria mais o mesmo valor que recebi em troca, se fosse ter que suar de novo para concluir o trabalho, hoje pediria bem mais em troca. Na verdade a minha valorização não se deve a inflação ou as mazelas do mercado internacional, mas sim as contas que chegam por debaixo da porta e não tenho como pagar.

Não sou muito chegado a fábulas ou historinhas pra boi dormir, sou ignorante ao ponto de achar que certas coisas só acontecem com o vizinho, principalmente as boas. Sou irresponsável em desviar o pensamento e querer mesmo é escrever algo quando ainda estiver com efeito do álcool em meu sangue, definitivamente sairia algo extraordinário, com começo meio e fim, ou então, sem o efeito da bebida, escrever em códigos, com declarações escondidas entre argumentos, que só o alvo em questão pudesse entender, criando um jeito próprio de escrever, como faziam Os Karas, de Pedro Bandeira, baseando toda a escrita no código do ‘Tênis Polar’. Mir dorri fesmi, e quo polhe i dazos lie asai pie nelgo irram.

Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, os parágrafos estão longe de estarem no mesmo artigo, assim como o sucesso e a má vontade. O que pode haver como resultado final de tudo acima é como cada um visualiza esse problema a se resolver, será algo para se somar? Diminuir? Dividir? Multiplicar? Deve ser algo para se pensar bem antes de começar a se resolver, eliminando de imediato tudo que está entre parênteses, deixando assim tudo bem às claras, mas sem esquecer-se do mistério dos códigos, porque acho que a vida sem um pingo de problema para esquentar a cuca é pura monotonia.

O que você me daria em troca para te satisfazer, resolver seus problemas e ainda por cima te balançar antes de dormir? Mas espere, antes de chegarmos a um valor, lhe adianto desde já que nada do que eu fizer será por completo, sempre haverá o sentimento de inacabado ou faltando um parágrafo entre um e outro, não sairei e muito menos armarei campana em lugar algum a procura de novas histórias, com o tempo será visível a vida em círculos que irá se formar com o uso das mesmas palavras, inteligentemente distribuídas de formas diferentes apenas para lhe iludir a pensar que ali está algo novo.
E então, como vai ser? Está disposto a ajudar alguém a lhe pregar peças, esconder as chaves do seu caminho certo no próprio bolso e mandar você procurá-las no outro lugar, lavar as suas toalhas sempre com a mesma água suja?

O tempo parou, tenho certeza... e nada combina com nada.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Felicidade triste

Não, não quero escrever sobre minhas angústias, todo o gosto amargo do desespero em minha boca vou guardar só pra mim, não preciso expor isso, quem quer saber de toda a malemolência que toma conta do meu corpo, como um câncer maligno, assaltando de mim o sorriso fácil?
Prefiro exaltar a felicidade de breves momentos, aqueles mesmos que duram pra sempre, que me permitem viver eternamente aquele fim de semana inesquecível na casa de praia, proporcionando-me a doce alegria de não ficar velho, sempre se sentindo como aquela criança, que um dia por capricho da evolução, deixei de ser. A preocupação em rever os momentos alegres do passado é perceber que esses tais momentos estão cada vez mais raros, trocando de lugar com períodos que passam despercebidos, arrastados, sem data ou fotos para relembrar.

Mas isso não pode ser preocupante, não deve ser, até porque sei que a alegria anda comigo lado a lado, desde as noites quentes afagadas no colo de quem amo ou quando uma simples brisa fria me alivia do calor de um sol em chamas, por isso mesmo não acho correto expandir o lado negro da tristeza. Não seria justo propalar apenas esse sentimento menor que me assola constantemente, que me faz viver com uma borracha na mão, apagando a minha crista baixa quando ela se aflora em meio à multidão.
Acho que não estou me enganando, mas sim lutando contra mim mesmo.

Fica a dúvida de como será o raiar do sol no dia de amanhã, não sei se estarei sentado no fio da calçada, com gravetos na mão a rabiscar palavras no chão empoeirado, ao lado de queridos meus, vislumbrados com as nuvens brancas que surgem sobe nossas cabeças, sorrindo de histórias do dia anterior ou se estarei dentro de casa, encostado à janela, vigiando o lado de fora que imerge lentamente em pingos dágua, brotando em tantos a preocupação de como estará o teto que vive quando enfim voltar no fim de mais um dia cinzento.
Não sei como estarei.

Fico apenas com a esperança de saber que pingos dágua também proporcionam belas flores... E não só na primavera.






Foto by: Flickr
E como diria Cecília Meireles;
'Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta'

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sensações

Feche os olhos, sinta o vento e o abraço quente do sol por todo o seu corpo.
Feche os olhos e escute o que as ondas lhe dizem quando se quebram nas pedras. Diga-me o que você sente, me mostre o que você ver e aponte o pássaro que pesca pequenos peixes perto de nós.

Inclua-me nessa sensação agradável que você desfruta nesse instante e assim sendo, permita nos continuarmos dessa maneira por um bom tempo... Leves... Felizes, apesar de não haver sorrisos em nossos rostos.


Feche os olhos, seja uma boa pessoa, seja o sopro frio em cada um de nós quando o calor estiver insuportável, seja a voz dos sons mais lindos vindos do fundo do mar, seja forte ao ponto de mover montanhas. Insira em nós as imagens mais lindas, como a de pássaros que percorrem dois céus de distância para alimentar a cria faminta.


Seja você, essa pessoa que sempre me abraça e me beija, assim serei sempre o mais feliz.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Do outro lado do trilho

Costumava atravessar a linha de ferro que ficava a frente da casa dos avós, a única barreira que os impediam de chegar até ali era um pequeno muro, que na verdade servia apenas como um local para se sentar no fim do dia e jogar conversa fora. O muro também foi residência de um enxame de abelhas por uns tempos, as fabricantes de mel tiveram que sair de lá com o calor de um incêndio proposital.

Olhavam de um lado pro outro, antes de cruzar a linha de ferro, o perigo vinha do forte trem que passava de minutos em minutos, com seu barulho tradicional ao passar com as pesadas rodas nos encontros de uma linha de ferro com uma outra, o forte apito avisando a todos que já estava chegando à estação bem próxima, completava o som que vinha dos trilhos. Aquele som que enchia a casa e sempre incomodava o apresentador da TV ligada na sala, não os permitindo ouvir o que estava se passando naquele momento, aquele som que os acordava ainda na madrugada da manhã.

Quando enfim chegavam ao outro lado do trilho, se enfiavam num buraco feito na tela de proteção que protegia a avenida grande que paralelamente a linha de ferro, ia também em direção a prosperidade, servindo de corredor para milhares de carros e caminhões. Naquele mesmo ponto, após aquele mesmo buraco na tela de proteção, eles já se acotovelaram uma vez com outros tantos, que também vieram do outro lado do trilho, para ver passar o maior representante da igreja católica no mundo, acenaram pra ele, apesar de achar que ele não os viu – ele trafegava num carro branco, sem vidros e a parte de trás. Ele estava em pé, de branco, com um sorriso fraterno no rosto.
Naquela manhã eles não cruzaram a avenida, até porque não precisava, mas nem sempre era assim, no fim do dia, ainda com o sol raiando perto do horizonte, eles cruzavam a pista negra em direção a fabrica do lado de lá, ficavam em frente a uma imensa janela de vidro, toda fechada, e no lado de dentro ficava uma grande maquina ditando o vai e vêm das garrafas de refrigerantes que recebiam o suco com gás e as tampas como lacres.

Eles ficavam ali boa parte do tempo, os carros a passar ao lado e a calçada inclinada serviam também como um ótimo passatempo. Dali eles enxergavam a casa dos avós, do outro lado da linha. Conseguiam ver a parte de cima do sobrado, e a luz que vinha do lado de dentro da janela aberta, escorado nela estava o avô, pastorando a todos.
A cem metros dali existia outro ponto comercial que eles sempre iam; A padaria, com os bolos feitos na hora, o cheirinho de pão novo e os doces que faziam à alegria da criançada.


Hoje em dia eles não cruzam mais a linha de ferro, até porque não existe mais o buraco na tela de proteção, hoje em dia a fabrica de refrigerantes não existe mais, e a única maneira de enxergar dentro dela é por cima, por entre as vigas de madeira de se acabam com o passar do tempo, hoje em dia o imóvel da fabrica está abandonado, hoje em dia não há como sentir o cheiro dos pães e bolos da padaria, no local há apenas carros enfileirados a espera de um comprador e o único cheiro ali é de gasolina e motor castigado, hoje em dia eles não ficam em cima do muro ao fim do dia conversando, quanto mais os avós para pastorá-los, hoje em dia quando eles trafegam pela avenida, ainda conseguem enxergar uma luz dentro da casa quando a janela está aberta, mas não tem a mínima idéia de quem ali está a se debruçar.

Hoje em dia eles perderam a ingenuidade daquela época, e o Papa já não trafega mais pelas ruas sem um vidro a protegê-lo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Você de volta

Que bom te ter de volta, as inúmeras noites de uma saudade que me matava lentamente fazendo meu coração bater forte, me incomodando com lembranças suas, ora com imagens nossas juntos, ora visualizando você com ela. Vivi as noites mais longas que um ser humano já pode ter vivido e vagava durante os dias como uma zumbi, sem ter ao certo pra onde ir ou o que fazer.
Mas agora que você esta aqui comigo, quero esquecer isso por completo, não me interessa o que passou e o que você fez, apenas me prometa me amar como antigamente, me beijar como nunca, me olhar com desejo, sussurrar-me palavras sacanas quando estivermos nus a desmentir a física ocupando o mesmo espaço no universo, Fazer-me implorar pra você ir mais fundo, fazer brotar de mim o suor com o odor da luxúria, mergulhar em minha boca seu sexo e se lambuzar no meu, me prometa sermos o que éramos antes e te prometo ser tudo o que você jamais sonhou, ser sua em todos os momentos – desde já -, ser seu amuleto nos momentos de sorte e sua ponte para cruzar os momentos ruins.

Que bom te ter de volta, só assim posso voltar a ser eu de novo, a ser alguém, voltar a sentir o gosto nos alimentos e sorrir como uma criança.
Ao seu lado as minhas noites deixaram de ser intermináveis para, com a ajuda do seu colo, se transformar em inesquecíveis momentos com os melhores sonhos.


Espero que tudo isso acima se torne realidade, estarei sempre a te esperar.

De sua eterna apaixonada.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O Canalha

Ajeitou-se no banco do carro e puxou a armação do seu ray-ban para baixo quando avistou – ao seu lado – o belo par de pernas que inquietos, balançavam sem parar. “De onde saiu esse monumento?” – ele pensava enquanto ajeitava seu braço na porta do carro e os olhos já faziam todo o percurso que suas mãos, tronco e boca desejavam fazer. Do lado da placa da parada de ônibus, uma garota, na faixa dos 24 anos, grandes cabelos negros, amarrados ainda molhados que faziam o vestido, estampado com grandes rosas amarelas, ficar mais colado na altura da cintura. Sandália com um pequeno salto, mas que eram suficientes para deixar as costas das pernas mais belas e as nádegas mais provocantes. Nem de longe ela se parecia com uma qualquer, apesar de todo a sexualidade que deixava transpirar. O rosto angelical nem se mexia quando – praticamente – todos os motoristas se contorciam em seus carros para olhar pra ela quando passavam na avenida e buzinavam iguaizinhos a um coiote em filme infantil. Em seus braços, cruzados em seu peito, relaxavam seus cadernos. Logo ele olhou o relógio, “21:20” – ele leu os ponteiros – “Pra aula ela não deve estar indo e por aqui não tem colégio. O que essa mulher tava fazendo? Que mulher!” os pensamentos dele estavam embriagados pela cólera, pensou em ir até ela, estava apenas a alguns passos, mas logo se lembrou que sua mulher estava pra chegar – “Que saco!” – virava o rosto incansavelmente para frente e para trás, vigiando o momento que a esposa chegasse. Censurava os motoristas cada vez que o semáforo, há uns 200 metros, abria caminho aos carros que passavam e buzinavam quando cruzavam com a garota. “Que garota! Ainda bem que o ônibus não vem. Eu vou lá e é agora” – ele estava decidido – abriu a porta do carro, saiu e ajeitou a camisa e começou a pentear o cabelo com seus dedos, tirou o foco da garota e virou-se para procurar a esposa e levou um baita susto quando ela já estava do seu lado – “que susto você me deu” – ele falou de supetão – “está fazendo algo errado para ficar se assustando?” – a esposa respondeu irônica, mas logo o sorriu e ao mesmo tempo fez uma cara curiosa olhando por cima do ombro dele – “o que foi?” – ele perguntou já se virando para a garota, nesse momento ele sentiu que a noite a frente seria regada a discussões por causa das belas pernas e cintura grudada em rosas amarelas. Ele logo visualizou o roteiro: “quis esperar no carro para ficar vendo essa aí, ne?”, mas se surpreendeu com um sorriso se transformando no rosto dela. – “Olha a Camila ali” – a esposa dele disse apontando e já se encaminhado e o puxando em direção ao monumento em carne e osso.
“Camila, tudo bem?” – a esposa do canalha falou com a garota – “Vânia, mulher, é você?” – Camila alegremente reconheceu a amiga dos tempos de primário – “Quanto tempo, hein, o que você esta fazendo?” – ela fez a pergunta mais usada em todo o planeta quando duas pessoas se reencontram depois de um bom tempo – “trabalhando, trabalhando e trabalhando. Ah e me casei, olha aqui o maridão” – Vânia saltitava com o encontro inesperado e pelo jeito, o canalha também. “oi, tudo bem?” – Camila, já com os livros apoiados em um braço só, esticou o outro para apertar a mão do marido da amiga enquanto lhe emprestava um sorriso de orelha a orelha – “tudo ótimo” – ele respondeu como se estivesse sendo apresentado a alguma garota em uma festa de azaração. “Bom, lá vem meu ônibus, tenho que ir nesse se não vou esperar mais um mundo até o próximo, legal te ver. até mais” – Camila se despediu da amiga já se virando apressada para a entrada do coletivo.
“Ela está ótima, está do mesmo jeito quando fazíamos o colegial juntas” – Vânia disse ao canalha já dentro do carro – “às vezes não entendo o seu gosto, a garota é estranha” – o canalha respondeu – ela soltou um riso e disse enfim: “ ‘Estranha’? você sempre diz isso quando quer chamar uma mulher de feia! Eu te conheço”. O Canalha apertou a mão no volante, olhou para a mulher e disse ironicamente: “os meus olhos só conseguem enxergar beleza em você meu amor”




Texto escrito originalmente no Pausa para o Glamour, colado aqui apenas para aumentar o Sanduíche

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Escrito Por:

Antes havia uma folha branca e uma caneta. Hoje em dia na tela iluminada tem uma parte branca, uns números ao lado, como se fossem marcadores de linhas que não existem na verdade. Pisca pisca na tela. Uma espécie de seta pisca incansavelmente a sua frente, lhe chamando, lhe esperando, lhe amaldiçoando. “como é, não consegue mais?” – a seta rir de você – “Não, não tenho mais nada” – você nem uma resposta decente tem – a seta continua. Não era assim. Não era assim. Não era. Antes enxergava histórias intermináveis numa simples revoado de pássaros - “simples”? Eu disse: simples? Que droga! Revoada de pássaros é belo. Um sincronismo perfeito. Uma dança incrivelmente ensaiada no ar. Coisa de equipe. Sempre juntos, sempre ao mesmo horário do dia, um sem atrapalhar o outro, pelo menos não a olhos desavisados que admiram tamanha beleza.
A seta continua. Os dedos ora clicam sem forçar o surrado teclado, ora se afundam nos cabelos, ora procuram alimento para o corpo dentro da geladeira. Que tal alimento para a alma? “Alimento para a alma”, já vi isso. Em algum lugar. Já estou a copiar.

Antes havia uma folha branca e uma caneta...
Hoje em dia essa coisa eletrônica demais. Quero passar folhas, quero um marcador de pagina, quero falar-te ao vivo e a cores e esquecer o msn que nos deixa tão distante, quero te tocar ao invés de te dizer virtualmente que vou te abraçar. Quero te penetrar ao invés de imaginar virtualmente que vamos passar a noite juntos. Quero. Quero. Você. Quero. Quero. Quero dizer-te que nunca vou conseguir te passar em linhas frias o tamanho da felicidade que explode em meus olhos quando estamos contrariando todas as leis da física se transformando em um corpo só, ocupando o mesmo espaço no universo. Quero.

A seta continua. Pense, pense rápido. Diga o que lhe vem. Diga! Ok, então lá vou eu seta, deixa te dizer o que vem em minha mente, “na verdade não é em minha mente, mas sim aos meus ouvidos, aqui em frente dois garotões pararam os carros no meio da rua e estão conversando algo indecifrável, estão falando alto, grosso, mas sem sentido. O que penso é: porque no meio da rua? Atrapalhando o transitar de todos, atrapalhando um mero mortal que ao invés de estar com uma folha branca e uma caneta a mão, está a frente de uma tela branca eletronicamente programada para receber comandos, estão atrapalhando o revoar dos pássaros”

Que merda!
Do que estou falando???
Antes havia uma folha branca e uma caneta, hoje todo esse blá, blá, blá estúpido. Pássaros, papel, carros?
O que faltou?
O amor. Isso, isso mesmo. Ta faltando o amor.
Então: Te amo.



Texto escrito originalmente no Pausa para o Glamour, colado aqui apenas para aumentar o Sanduíche

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