sábado, 22 de agosto de 2026

O novo supermercado

Moro em uma pequena cidade litorânea. Na verdade, nem esse status ela tem. O lugar em questão carrega o acanhado título de Distrito. Costumo dizer que é como se fosse um bairro de uma grande cidade, inclusive com a possibilidade de estar distante da Sede/Centro. Vale registrar que esse tal distrito à beira-mar carrega em suas demarcações a principal fonte de renda de todo o município: O Porto - que, por sinal, é o maior do estado em operação.

Apesar da arrecadação generosa, o lugar que já foi vila de pescadores se desenvolveu a duras penas, claro que a grande empresa ajudou muito nesse desenvolvimento, pois abocanhou parte da mão de obra vinda de filhos desse projeto de cidade, porém o Porto é importante demais para dividir a atenção politica do poder público com qualquer outra coisa, e com isso o lugar cresce em uma velocidade não compatível com o potente motor.

Ontem o distrito ganhou mais um supermercado, e agora conta com três. Pelo jeito os outros dois não estavam suportando atender os nativos, turistas e trabalhadores das empresas instaladas no Porto (chamados carinhosamente de ‘peões’ pela população). O novo empreendimento foi recebido com festa. Os longos dias de espera pela inauguração foram uma agonia para muitos, a ansiedade reinava nas conversas de rua. “Quando vamos poder enfim ter um mercado que preste?”, era uma das reclamações, misturando sentimentos de esperança, ingratidão, desprezo, expectativa e denúncia. O aguardo realmente foi duro, o prédio foi levantado do zero.

Sábado foi o dia da semana escolhido para a inauguração. Antes das 7 da manhã, várias pessoas se aglomeravam em frente ao estabelecimento, olhos curiosos e sedentos por promoções, alguns seguraram as compras da semana para poder viver esse grande momento. Atenção total em algumas prateleiras que conseguiam enxergar dali, do lado de fora, como uma saborosa televisão de cachorro, entupida de galetos cheirosos, daqueles irrecusáveis num domingo ao meio-dia. Um enorme portão dividia a agonia dos consumidores de um lado com a dúvida e medo dos novos funcionários do outro. “Será que vou conseguir manusear o caixa direito, e se eu errar a contagem de algum dinheiro?”, essa deveria ser uma das aflições. Junto aos nervosos funcionários estavam alguns criadores de conteúdo, esses com certeza em festa, estavam diante de tudo que eles sonham: evento, multidão, novidade e um crachá lhe proporcionando livre vai e vem. Tudo estava preparado, mas o relógio parecia não andar, o locutor repetia insistentemente as mesmas frases, o sorriso fácil no rosto dos influencers ao olhar para a câmera do celular, o suor em cada rosto que se espremia no portão que seguia fechado.

Enfim chegou a hora, a fita vermelha foi cortada seguida de aplausos e fogos de artifício perigosamente soltos próximo à multidão que se agitava em gritos de euforia. O portão aberto e a partir daquele momento o que se viu foi uma série de acontecimentos interligados que vírgula alguma conseguiria separar: as fileiras foram ocupadas por carrinhos novos que deslizavam suavemente com os produtos sendo colocados quase que sem pensar se seriam necessárias depois de todo aquele esforço do corre-corre carregando o carro junto das crianças que se moviam pelo corredor atrapalhando as lives que os criadores de conteúdo faziam mostrando o ambiente e as promoções para quem acompanhava tudo de casa com vontade louca de ir pra lá e aproveitar tudo que o novo mercado estava a proporcionar com a promessa de preços baixos e produtos de qualidade. Ufa! Foi uma loucura, porém com o conforto do ar-condicionado.

O dia seguiu com o prédio sempre ocupado - “de onde saiu tanta gente?”, vira e mexe alguém se questionava. Um sábado de multidão pelas ruas do distrito, que agora eram também ocupadas pelos carrinhos de compra do supermercado. Brotaram relatos de pessoas que viam os carrinhos com mercadorias sendo carregados nas vias próximas. A multidão pelo jeito queria esvaziar o novo mercado.


A noite chegou, com ela o horário de acabar o expediente e clarear alguns problemas do novo empreendimento: caixas espalhadas na rua, caminhões da empresa descarregando novos produtos para o dia seguinte, prejudicando o sono tranquilo dos moradores próximos. O progresso mostra suas armas, viola os bons costumes, bate de frente com a saúde física e mental, vende o sonho perigoso que está oferecendo algo necessário sem ser.

O supermercado foi inaugurado. Agora é a vez do dia seguinte.

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