segunda-feira, 6 de julho de 2026

À Distância - Parte 1

A atenção dela estava toda voltada para o livro em suas mãos. A leitura de romances investigativos a encantava. Costumava buscar sinopses e autores conhecidos por misturar mistério e histórias sensuais. Adorava se imaginar envolvida com personagens investigadores, para ela, eram eles que costumavam receber as descrições mais interessantes. Homens ou mulheres inteligentes, bem vestidos e com um humor acima da média. Esses eram os adjetivos que mais a atraíam.


Ela estava em um shopping, sentada em um banco, aproveitando os minutos restantes da pausa para o almoço. Levantou a cabeça e passou a observar o vai e vem de pessoas à sua frente. A ideia era encontrar, entre desconhecidos, o personagem por quem acabara de se apaixonar durante a leitura. A busca foi em vão. Balançou a cabeça negativamente e voltou a atenção para o livro.


"Enfim uma pequena movimentação no quarto que ficava no prédio do outro lado da rua. Ele arregalou os olhos, com toda a atenção voltada para o ambiente quase às escuras logo à frente. Era noite, e a iluminação precária no topo do edifício onde estava servia como um excelente esconderijo para a espionagem. Colocou a câmera fotográfica diante dos olhos e, com o auxílio do zoom, passou a observar o interior do imóvel à frente. As duas janelas mostravam exatamente o que ele queria: a sala e o quarto.
O casal atravessou a sala. O homem conduzia a mulher pela mão. Ele conseguia ouvir risos abafados pelo barulho de motos e carros que transitavam na rua, três andares abaixo. O prédio antigo, localizado em uma rua pouco movimentada no centro da cidade, servia como o reduto perfeito para um casal de amantes. Pelo menos até aquele momento.
Gil mantinha a câmera totalmente direcionada para a cama, aguardando o casal. Mas nenhum sinal de movimento.


'Onde estão eles?', pensou.


Gil havia sido contratado, duas semanas antes, por uma granfina muito rica. O encontro aconteceu dentro do automóvel dela, estacionado em um parque. A conversa foi rápida e sem rodeios. Ela foi direta ao dizer que suspeitava de uma traição por parte do namorado. No carro estavam apenas os dois, no banco traseiro, e o motorista, que escutava tudo em silêncio. Gil reparou que, durante toda a conversa, o motorista não tirava os olhos da patroa, e a maneira como os dois trocavam palavras parecia diferente.

'Acho que vou espionar alguém a mando de quem deveria ser espionada', pensou Gil.


O quarto, mal iluminado por uma lâmpada amarelada e móveis escuros, não ajudava no trabalho de Gil. Muito menos o casal, que entrou no quarto, mas não foi para a cama. O tempo passava, mas Gil, um detetive acostumado com esse tipo de trabalho, permanecia com os olhos presos no local.
Então, num piscar de olhos, a mulher se jogou sobre a cama, completamente despida. A pele branca em paz com a fraca iluminação do ambiente a deixava mais sensual, com as curvas do corpo se perdendo nas sombras, um convite para um parceiro curioso. Ela exibia um sorriso largo, os cabelos pareciam molhados. Virou-se de lado, deixando as costas voltadas para a janela, não parecia se importar com o prédio do outro lado da rua. Ela conversava com alguém que permanecia fora do campo de visão.
Gil se recriminou por não ter fotografado o casal quando atravessou a sala."



Ela conferiu as horas no relógio e percebeu que tinha apenas alguns minutos.

A história caminhava justamente para o ponto de que ela mais gostava: quando o suspense da descoberta se misturava ao odor do sexo. Achou melhor terminar a leitura em casa.



Voltou a observar as pessoas que passavam de um lado para o outro até enxergar alguém de rosto familiar. Na verdade, um rosto diferente e conhecido ao mesmo tempo. Ela estreitou os olhos, num movimento de buscar, ao mesmo tempo, uma visão mais nítida e alguma lembrança esquecida. A pessoa estava um pouco distante, posicionada de lado, atenta à televisão que exibia as opções do restaurante, completamente alheia àquela observação.


Enfim o reconheceu.



De imediato, uma onda de frio percorreu todo o seu corpo. Parecia um fantasma surgindo diante dela. Mas não. Era um ex-ficante. Não o via havia mais de quinze anos. Ele estava diferente. Cabelos curtos, bem aparados, vestindo roupas claras, impecáveis e alinhadas. "Será que aquele Romeu que conheci, que usava bermudas de surfista, se transformou em um homem igual aos que imagino nas histórias que leio?", pensou.



Seu olhar percorreu toda a área ao redor dele. "Ele deve estar com alguém. Não tem como estar sozinho."



Enquanto examinava as mesas próximas, procurando alguma mulher desacompanhada, colocou em prática todo o faro investigativo que vinha adquirindo nas leituras dos últimos meses. Ao mesmo tempo, tentava lembrar por que nunca havia firmado um relacionamento sério com Romeu. Ele era aventureiro por natureza. Vivia em função de carne nova, sempre atento às novidades, como um predador farejando movimento. Não existia nela qualquer arrependimento por ter sido uma de suas presas, apesar do gosto amargo de jamais ter tido o controle da relação. O bom humor e a luxúria eram suas maiores armas. Dominava como poucos a palavra certa para arrancar um sorriso malicioso de qualquer mulher que aceitasse conversar com ele a sós. E ela havia caído naquela conversa inúmeras vezes.



Ela se perguntava se deveria ou não ir até ele. Não sabia o que fazer. Olhou-se dos pés à cabeça, mexeu nos cabelos e os colocou de lado, da maneira que ele gostava de deixá-los quando passava os dedos suavemente por eles. Ajustou a camisa por dentro da calça e puxou o blazer um pouco mais para a frente. Naquele momento, agradeceu por sua farda ser escura, deixando-a mais magra.


Ele começou a caminhar em direção a ela, porém ainda não a tinha visto. Ela se levantou e passou a caminhar em direção a ele, mas resolveu desviar o olhar. Os dois se cruzaram. Logo depois, ela ouviu a voz dele perguntar:


- Cris?


Ela se virou, fitou-o e respondeu um "sim", como se estivesse falando com um estranho. Ele a olhou e perguntou novamente se o nome dela era Cris.


Iniciou-se, então, o diálogo tradicional de duas pessoas que acabavam de se reencontrar depois de muitos anos. Enquanto conversavam, ela estudava cada palavra e gesto dele, tentando descobrir sua situação amorosa. Radiante, percebeu que ele não usava aliança.


- Que maravilha te reencontrar! - disse ele, abrindo um largo sorriso. Cris não se segurou e resolveu abrir a porta do passado. - Sim. É interessante que, mesmo depois de tanto tempo, parece que estamos apenas continuando uma conversa que tivemos na semana passada, e não há mais de quinze anos.


- Verdade. - respondeu ele.


- Eu adorava as nossas conversas. - Ela chutou o balde e apostou tudo.


- Não me leve a mal, mas confesso que gostava ainda mais de como elas terminavam. Ou melhor, era sempre prazerosa a maneira como encerrávamos as nossas conversas.


- Pelo jeito, o tempo não passou, né, Romeu? Você continua o mesmo.


- Nós, Cris. Nós.



Eles estavam pegando fogo. As mãos estavam inquietas e os risos, fáceis. Tudo ali, em meio à multidão que passava de um lado para o outro. Mas eles só conseguiam ouvir um ao outro, vivendo a magia de poder voltar no tempo.


Ela o puxou para um abraço e sussurrou ao ouvido: Quero te ter hoje à noite. Às dez estarei livre.



Eles estavam juntos novamente. Após quinze anos, estavam prestes a reviver a química, ir contra a lei da física e ocupar o mesmo lugar no espaço, mostrar que, na matemática, um mais um às vezes resulta em sessenta e nove e que, na língua portuguesa, palavras sujas aceleram a respiração, despertam a força dos movimentos e transformam o suor dos dois corpos na energia necessária para repetir tudo aquilo sem pensar em parar.



Romeu deu um beijo inocente na face de Cris e disse: Antes das dez estarei aqui te esperando.


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