O padeiro morreu. Os pouco mais de três mil moradores do pequeno vilarejo ainda não sabiam da notícia. O vigia, que também era frentista do único posto de gasolina da cidade, foi o primeiro a descobrir. Durante a madrugada, o carro responsável pelo recolhimento do corpo parou no posto para pedir informações sobre onde ficava a padaria. O frentista custou a acreditar no que acabara de ouvir. Todos os dias, após terminar o turno, passava na padaria para buscar alguns pães quentinhos antes de voltar para casa. Naquela manhã, porém, chegou de mãos vazias. O filho mais novo iria para a escola sem tomar café da manhã. O mais velho seguiria para o açougue de estômago vazio. Foi então que um pensamento ainda mais inquietante lhe ocorreu. "Será que o açougueiro vai trabalhar hoje?" E, se não fosse, de onde sairia a carne do almoço? E o restaurante, como faria?
O padeiro morreu. Às seis da manhã, uma fila já se formava na porta da padaria. Não havia cheiro de pão quente pairando no ar, nem qualquer sinal de movimento. - O que houve? Como ele ousa atrasar tanto hoje? - perguntou a responsável pelo caixa da lotérica. Ninguém no vilarejo sabia do triste acontecimento, além do vigia-frentista. Resolveram, então, chamar o único chaveiro da cidade para abrir o portão da padaria. Enquanto isso, a fila aumentava. O entregador de água, a recepcionista do pet shop, o mototáxi, o gari, o vendedor da loja de móveis, o relojoeiro... Aos poucos, o pequeno vilarejo inteiro parecia concentrar-se diante daquela porta fechada. Alguns censuravam o padeiro. Outros não conseguiam acreditar na audácia daquele atraso. "Quem ele pensa que é?" - Era a mais educada entre tantas perguntas e reclamações que já beiravam a ofensa.
O padeiro morreu. O terminal rodoviário estava vazio. Ninguém tinha ido trabalhar. As três pequenas lojas do local - a venda de bilhetes, a lanchonete e a loja de artesanato - permaneciam fechadas. Pontualmente às 6h30, o primeiro ônibus intermunicipal entrou na cidade. O motorista estranhou o silêncio. Não havia passageiros esperando, nem funcionários circulando pelo terminal. O único passageiro que desembarcou olhou para um lado, depois para o outro. Não viu ninguém. Resolveu caminhar para casa. Antes, porém, passaria na padaria.
O padeiro morreu. O chaveiro chegou e abriu o portão. Todos se amontoaram em frente à porta quando ela finalmente se abriu. A curiosidade era maior que a impaciência. Na área de atendimento não havia ninguém. Resolveram seguir até os fornos e os maquinários. Tudo estava parado. Tudo estava em silêncio. Não havia ninguém ali, pois o padeiro morreu.
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