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sábado, 29 de agosto de 2026

Dias úteis X Fim de semana

"Eu não me importo se a segunda é triste
A terça é cinzenta e a quarta também
Na quinta, eu não me importo com você
É sexta-feira, eu estou apaixonado”


Tradução livre de um trecho da música Friday I'm in Love, da banda The Cure. Por essa parte da música, fica claro o desespero emocional do personagem na canção por um dia na semana. A ouvi em uma entediante terça e fiquei pensando na questão do tempo que corre pelas nossas mãos enquanto estamos no aguardo da grande novidade.
Os dias que antecedem algo que está marcado em nosso calendário como sendo incrível tendem a ser apenas uma ponte. Algo que não será lembrado. Um ritual de passagem apenas. O importante está logo mais à frente.

Ainda no tema da semana, não é difícil achar em letras musicais essa loucura pela chegada do fim de semana. Dias de feira que se lasquem, tirando o “sextou”, óbvio. Of course, como toda regra, há exceção, pelo menos de forma maquiada. Veja esse exemplo: a velha afirmação de que a segunda é o dia da preguiça, vem perdendo força ao longo do tempo. Existem os que usam a porta de entrada dos dias úteis como preparação ideal para o fim de semana. Tem que servir pra algo, né?

A segunda-feira costuma ser o dia do início para tudo: dia da inscrição na academia, dia da dieta ou da organização financeira, tudo visando um sábado à noite perfeito, como não?
E como reclamar disso, hein? Sábado e domingo, até pra trabalhar, são bons, até porque se cobra mais caro pelo serviço. Gregos e troianos mostram a cara após os dias cinzentos da semana e, com isso, a tal lei da procura e da oferta opera sem dó.
Praia pra quem é de praia, serra pra quem é de serra, shopping pra quem é de shopping e por aí vai, abarrotando de praças a estradas, de teatros a parques. Estão todos in love, como diz na música. Nem o mão de vaca escapa à tentação.

De fato, são dias inspiradores. Este texto, por exemplo, desde o início da semana tentava desenvolvê-lo, e foi necessário o ar boêmio que sopra na cidade após as 18 horas da sexta-feira para enfim dar sequência à sopa de palavras.
A preguiça rasteja em alguns dias para enfim trocar a pele, ganhando uma nova, cheia de cores e esperança. Vale lembrar que a janela das oportunidades se escancara no fim de semana.
Aquele trajeto ao ar livre em dias de feira costuma torrar a cuca. A mesma caminhada no fim de semana é sinônimo de vitamina D e endorfina, e o suor, que antes era incômodo, é sempre bem-vindo no sábado e domingo, pelo menos na bolha esportiva, pois costuma ser exibido como medalha em postagens nas redes sociais.

Por fim, os dias da semana são sim divididos - não tão bem, vale deixar registrado. Os dias de feira são cansativos, às vezes nublados, mas nada que um sábado e domingo não consigam levantar a poeira.
Para apaziguar as ideias e deixar de lado esse pensamento de atrito entre os dias, fica claro que tudo é perfeitamente encaixado: um morde e assopra. Um depende do outro.

A única coisa que ninguém merece é o tédio de um domingo à noite.



sábado, 22 de agosto de 2026

O novo supermercado

Moro em uma pequena cidade litorânea. Na verdade, nem esse status ela tem. O lugar em questão carrega o acanhado título de Distrito. Costumo dizer que é como se fosse um bairro de uma grande cidade, inclusive com a possibilidade de estar distante da Sede/Centro. Vale registrar que esse tal distrito à beira-mar carrega em suas demarcações a principal fonte de renda de todo o município: O Porto - que, por sinal, é o maior do estado em operação.

Apesar da arrecadação generosa, o lugar que já foi vila de pescadores se desenvolveu a duras penas, claro que a grande empresa ajudou muito nesse desenvolvimento, pois abocanhou parte da mão de obra vinda de filhos desse projeto de cidade, porém o Porto é importante demais para dividir a atenção politica do poder público com qualquer outra coisa, e com isso o lugar cresce em uma velocidade não compatível com o potente motor.

Ontem o distrito ganhou mais um supermercado, e agora conta com três. Pelo jeito os outros dois não estavam suportando atender os nativos, turistas e trabalhadores das empresas instaladas no Porto (chamados carinhosamente de ‘peões’ pela população). O novo empreendimento foi recebido com festa. Os longos dias de espera pela inauguração foram uma agonia para muitos, a ansiedade reinava nas conversas de rua. “Quando vamos poder enfim ter um mercado que preste?”, era uma das reclamações, misturando sentimentos de esperança, ingratidão, desprezo, expectativa e denúncia. O aguardo realmente foi duro, o prédio foi levantado do zero.

Sábado foi o dia da semana escolhido para a inauguração. Antes das 7 da manhã, várias pessoas se aglomeravam em frente ao estabelecimento, olhos curiosos e sedentos por promoções, alguns seguraram as compras da semana para poder viver esse grande momento. Atenção total em algumas prateleiras que conseguiam enxergar dali, do lado de fora, como uma saborosa televisão de cachorro, entupida de galetos cheirosos, daqueles irrecusáveis num domingo ao meio-dia. Um enorme portão dividia a agonia dos consumidores de um lado com a dúvida e medo dos novos funcionários do outro. “Será que vou conseguir manusear o caixa direito, e se eu errar a contagem de algum dinheiro?”, essa deveria ser uma das aflições. Junto aos nervosos funcionários estavam alguns criadores de conteúdo, esses com certeza em festa, estavam diante de tudo que eles sonham: evento, multidão, novidade e um crachá lhe proporcionando livre vai e vem. Tudo estava preparado, mas o relógio parecia não andar, o locutor repetia insistentemente as mesmas frases, o sorriso fácil no rosto dos influencers ao olhar para a câmera do celular, o suor em cada rosto que se espremia no portão que seguia fechado.

Enfim chegou a hora, a fita vermelha foi cortada seguida de aplausos e fogos de artifício perigosamente soltos próximo à multidão que se agitava em gritos de euforia. O portão aberto e a partir daquele momento o que se viu foi uma série de acontecimentos interligados que vírgula alguma conseguiria separar: as fileiras foram ocupadas por carrinhos novos que deslizavam suavemente com os produtos sendo colocados quase que sem pensar se seriam necessárias depois de todo aquele esforço do corre-corre carregando o carro junto das crianças que se moviam pelo corredor atrapalhando as lives que os criadores de conteúdo faziam mostrando o ambiente e as promoções para quem acompanhava tudo de casa com vontade louca de ir pra lá e aproveitar tudo que o novo mercado estava a proporcionar com a promessa de preços baixos e produtos de qualidade. Ufa! Foi uma loucura, porém com o conforto do ar-condicionado.

O dia seguiu com o prédio sempre ocupado - “de onde saiu tanta gente?”, vira e mexe alguém se questionava. Um sábado de multidão pelas ruas do distrito, que agora eram também ocupadas pelos carrinhos de compra do supermercado. Brotaram relatos de pessoas que viam os carrinhos com mercadorias sendo carregados nas vias próximas. A multidão pelo jeito queria esvaziar o novo mercado.


A noite chegou, com ela o horário de acabar o expediente e clarear alguns problemas do novo empreendimento: caixas espalhadas na rua, caminhões da empresa descarregando novos produtos para o dia seguinte, prejudicando o sono tranquilo dos moradores próximos. O progresso mostra suas armas, viola os bons costumes, bate de frente com a saúde física e mental, vende o sonho perigoso que está oferecendo algo necessário sem ser.

O supermercado foi inaugurado. Agora é a vez do dia seguinte.

sábado, 15 de agosto de 2026

(re)iniciando os artigos semanais

Sempre tive uma inveja branca de quem consegue escrever artigos semanais sobre diversos assuntos. Viu, viveu, sentiu ou sei lá o que mais? Vira registro de fácil leitura. Tudo conta e vira histórias. Outro dia, uma pessoa me disse que eu deveria, sim, pensar no assunto, me debruçar sobre a tela branca e escrever sobre temas livres. É quase um cheque em branco que ela me passou. Levei o conselho como um baita elogio e cá estou eu, (re)iniciando algo que provavelmente não conseguirei manter por muito tempo. E digo isso não por achar que faltará assunto, mas sim por saber que a mente escreve mais rápido que a mão, e isso atrapalha a magia do improviso da primeira vez. Esse texto, por exemplo, já ganhou umas quatro versões, todas elas no pensamento. Tenho que ir devagar com a dor, que o Santo é de barro. Ontem mesmo, dia 11 de agosto, pensei em contar a história que vivi quando estudava na escola (de nome 11 de Agosto). Eu deveria ter uns 6 anos ou menos e ficava sempre a esperar meus pais irem me buscar no colégio. Um belo dia, após uma longa demora deles, percebi que era o único aluno trancafiado no portão da escola. Resolvi, então, aguardar o momento de descuido da “Tia” e ganhar o mundo. Quer dizer, a ansiedade atormenta as mentes humanas desde a infância. Saí do colégio e fiz o trajeto até em casa. Na rua, todos me olhavam. Eu me sentia importante, na minha cabeça, caminhava triunfante como um adulto, porém no corpo de um pivete. Cheguei em casa e não tinha ninguém lá. Mais uma vez, estava diante do portão fechado. Um tempinho depois, meus pais chegaram. Até hoje aguardo os cumprimentos deles pelo feito que realizei. Houveram palmas, mas não de parabéns. Tem outras lembranças daquela escola, mas isso vou aguardar para o próximo 11 de agosto.

Esse texto é o pontapé do projeto. Resolvi batizá-lo como ‘(re)iniciando os artigos semanais’ - apesar de que já me aventurei por esse caminho antes - e tenho que admitir que, por um breve momento, pensei em ‘Piloto’, mas daí me toquei que seria muita pretensão e cafonice da minha parte. A falta de criatividade começa antes da primeira linha, pois o nome é bizarro. Socorro! Por falar em Socorro, o artigo semanal da Acioli na Folha de São Paulo ganhou um nome interessante: “Chico Buarque em Paris e a pior dor de barriga da minha vida”. Como não ter curiosidade para ler algo com essa isca? O artigo dela passeia por empolgação e desespero - pois ela descreve o dia que conseguiu tirar uma foto com o Chico e uma desesperadora dor de barriga. Além disso, relembra algo da infância. Ela narra a experiência com um bom humor e o texto corre numa leveza ímpar. Dezenas de linhas escritas que se parecem com unidades. É a tal Escrita Respiração - prende e solta, respira e inspira. Segura a atenção e estimula a mente. Eu fui influenciado por ela, como não? E a prova disso é o artigo semanal entregue, misturando a empolgação com aflição - a história desenvolvida na mente e o tedioso encaixe das palavras, como um jogo de quebra-cabeças - e sem esquecer de misturar tudo isso com algo guardado na memória de infância. Vale deixar registrado que não é pretensão minha criar algo parecido com o dela, mas não custa tentar, né? Até porque só quem se arrisca consegue viver o extraordinário ou a humilhação.

Escrever faz bem, serve como libertador de ideias e, principalmente (pelo menos pra mim), como um diário atemporal. Esse artigo, apesar do título, não é o primeiro devaneio que escrevo. Tenho outras coisas guardadas em outros endereços eletrônicos (um deles, inclusive, foi desativado pelo site hospedeiro, era o com mais registros). Tá tudo guardado, inclusive a evolução, temperamento, humor e tantas emoções de quem escreve, apesar de que, por vezes, a escrita vem de algum personagem que habita na cabeça do autor. A mente que escreve mais rápido que as mãos é dividida em diversas partes. A - talvez - mais interessante é a da loucura, que por sinal, está ativa no momento, e a prova disso é que, de alguma forma, me comparei a Socorro Acioli. Por falar nisso, não sei se o texto da Socorro foi vivido por ela ou foi algo imaginado. Já o meu, com a história da criança fujona, foi sim verdade, e sigo no aguardo dos parabéns pela façanha.

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